sábado, 12 de setembro de 2009

Verão de 1995

N

o verão de 1995, após um dia de trabalho, dirigia meu automóvel tranqüilamente por uma das ruas mais charmosas da cidade de São Paulo, chamada Pamplona. Quando tive que parar o veículo, por causa do semáforo em vermelho, no cruzamento com a mais paulista das avenidas, a Avenida Paulista, não me dei conta de que estava com o vidro da porta do carro totalmente aberto, deixando-me a mercê de uma deliciosa brisa que soprava naquele fim de tarde, bem como de uma ligeira aproximação seguida de abordagem de um rapaz, mulato, quase negro, bigode ralo, expressão e sorriso dissimulado do ator de cinema norte-americano, Eddy Murphi.

De fato, não havia sorriso nenhum naquele semblante de rapaz urbano. O que se via num rosto ríspido encravado de um par de olhos vivos e sagazes, era um olhar de brilho intermitente, fugaz e penetrante na alma de quem seria mais uma de suas vítimas de ataque realizado com maestria de esperteza e rapidez, tal qual um leão no abate de uma gazela ferida. Naquele momento, na minha particular ingenuidade, achei que me fosse pedir alguma informação, uma ajuda ou outra coisa qualquer, porque são tantos que o fazem diariamente nesta grande cidade. Estava enganado, muito enganado.

Aquele sujeito me pediu algo que eu havia comprado há bem pouco tempo. Um toca-fitas de automóvel de último modelo, que havia sido instalado por precaução de forma portátil, ou seja, com um dispositivo chamado de bandeja, o qual permite ao seu proprietário levá-lo à tiracolo prevenindo-se assim de sorrateiros furtos.

Percebi, naquele momento, que estava prestes a entrar para as estatísticas de violência urbana de uma megalópole Sul Americana, quando vi, com esses olhos que alguém ainda fará talvez uso melhor, de relance, o brilho prateado de uma arma de fogo que era segurada com firmeza pela mão direita do rapaz. Ironicamente, a música que se ouvia do toca-fitas era The Wall, de Pink Floyd e havia sido gravada por um amigo que me dera de presente, na semana anterior, os dois volumes do álbum reproduzidos em duas fitas.

Fiquei indeciso diante do pedido, que àquela altura dos acontecimentos, já era uma ordem de vida ou morte. Olhava para o toca-fitas e para o rosto do rapaz balbuciando algumas palavras sem sentido, até que ele gritou nos meus sensíveis ouvidos.

- Anda logo! a esta ordem, entendi perfeitamente e com um movimento brusco retirei o toca-fitas do painel e passei-o às mãos do rapaz que rapidamente, o envolveu com a sua jaqueta cor de palha e em ziguezague entre os automóveis foi-se embora rua abaixo, desaparecendo em segundos, do alcance da minha vista.

Refeito do susto, após respirar fundo e me certificar de que ainda continuava vivo, segui dirigindo pela Avenida Paulista em direção ao meu lar aparentemente seguro. Subitamente tive a idéia de telefonar para a polícia chamando pelo número 190 com o telefone celular, algo ainda relativamente novo na época e de funcionamento precário, mas para a minha surpresa naquela chamada o aparelho funcionou muito bem. Narrei o ocorrido para a atendente e segui sua orientação de comparecer à delegacia de polícia mais próxima para registrar a ocorrência do delito. Lá, fiquei cerca de três horas e para o meu conforto psicológico, pude constatar de que havia muitos outros casos semelhantes ao meu. Exausto e indignado com aquela constatação, fui-me embora daquele lugar úmido, frio e de uma atmosfera horrível para a minha aguçada sensibilidade.

Indeciso sobre a compra de um outro aparelho toca-fitas de meu gosto, sobretudo seguro, algumas semanas se passaram. Finalmente optei, depois de muita reflexão, por um da mesma marca, porém de outro modelo, mais seguro ainda, ou seja, fixo no painel do automóvel e de frente removível, de modo que todas as vezes que eu deixava o carro em locais públicos ou até mesmo no estacionamento do prédio onde eu me residia, por precaução, retirava a frente do toca-fitas, colocava-a no seu estojo e a levava comigo como se fosse caixinha de óculos de sol. Certificava-me com esmero de todos os cuidados com a tal frente removível, sabendo também que se me fosse furtada por alguém, de nada serviria, pois havia nela um código de segurança que impedia seu funcionamento em outro aparelho. Lembro-me muito bem de que, por ocasião da compra, era isto o que me dizia o vendedor no seu forte apelo de venda.

Caro leitor, nesta vida há coincidências que se parecem com coisas de outro mundo. Foi isso mesmo o que conclui, dias depois de efetuada a compra do novo aparelho, quando de dentro do meu carro, parado diante do semáforo, há três ou quatro quadras do local onde havia acontecido aquele assalto, avistei alguém que me parecia familiar e trajava um terno, que se eu não me engano... era bege, quase cor de palha. Ele caminhava pela calçada a minha esquerda em sentido contrário da minha direção. Quando passou por mim, senti um calafrio, pois reconheci aquele olhar e o sorriso dissimulado, quase imperceptível, porém antes de pensar em alguma coisa ou pedir ajuda, senti também a sua presença e desta feita muito mais audaz, pois o cano do revólver já havia ultrapassado a fresta entre o vidro e a porta do carro e já tocava a minha cabeleira. Não pude conter a surpresa e disse em tom de lamentação. – De novo? Não é possível...

O rapaz ao me reconhecer, irritou-se mais ainda e repetiu a ordem e desta feita, dizendo que fosse retirada a frente do toca-fitas, como se ele soubesse de bate pronto que aquele modelo era o de frente removível. Não acreditei que o pesadelo recomeçaria naquele instante. Assustado, olhei para todos os lados tentando encontrar um olhar que pudesse perceber o que estava acontecendo, mas nada encontrei a não ser olhares vagos, de motoristas indiferentes e distantes. Pela segunda vez, vi a silhueta daquele rapaz se perder no emaranhado de carros que havia atrás de mim, levando consigo o toca-fitas protegido e seguro que acabara de adquirir.

De repente fui tomado de um acesso de raiva e de um sentimento de revolta inexplicáveis para um cidadão que detesta violência. Senti vontade de fazer justiça a qualquer custo e com as próprias mãos como o pior dos assassinos sanguinários. Enfurecido e decidido a levar adiante a minha sede de vingança contra tamanha ousadia, fui novamente para a mesma delegacia e lá narrei o fato com discurso de candidato a deputado. Exigi uma ação imediata da polícia, pois como cidadão honesto que sou, achei-me no direito de conseguir uma reparação daquela afronta, daquele abuso e da audácia a que havia sido submetido. Eis que, um cidadão qualquer ouvindo a minha história, contada em voz alta para o escrivão de polícia, se interessou e iniciou algumas indagações. Logo percebi que se tratava de um investigador de polícia. Ao final do depoimento, o policial convidou-me para uma ronda próxima ao local do crime, juntamente com outros dois policiais que ali estavam também à paisana e escutando a conversa. Aceitei prontamente o convite e lá fomos nós para o Parque Trianon. Quando nos aproximávamos do local me foi pedido para entrar no carro dos policiais, um sedan Volkswagen, branco, cujo ano e modelo não me lembro. Neste momento pude observar melhor os meus guarda-costas, bem como tirar as minhas primeiras conclusões de suas personalidades.

Dionisio aparentava 40 anos, talvez o mais velho dos três, mais de 1,80m de altura, magro, de cabelos ruivos, me pareceu o mais experiente, pois conduzia a diligência me fazendo muitas perguntas. É este? Perguntava Dionisio com rispidez. Como ele estava vestido mesmo? Trajava jeans? Insistia Dionisio, enquanto apontava para pacatos rapazes que transitavam pelas calçadas ou que se encontravam à espera da passagem de um ônibus.

Carlos Alberto, o Alemão, fumante inveterado, se parecia fisicamente um pouco com Dionisio, era loiro, olhos claros, alto, magro, usava óculos e bigodes. No entanto, ao contrário de Dionisio, aparentava um nervosíssimo inquietante, pois durante todo o tempo não tirava a mão direita do cabo da pistola automática que carregava na cintura. Podia jurar que ele era um paranóico na profissão, os fatos que sucederiam poderiam comprovar ou não a minha suspeita.

Valdomiro, o Miro, era moreno, um pouco mais baixo que os outros dois e mais jovem, mas seu físico era de longe muito inadequado para a função, necessitava de um bom regime, pois o excesso de gordura já transbordava a cintura das calças forçando-o a levantá-las a todo momento.

Estacionamos o carro na Rua Peixoto Gomide e iniciamos ao que chamei de "A Caçada do Parque Trianon". O Alemão, assim que desceu do carro, seguiu a passos largos para a Alameda Santos no seu ponto menos iluminado, ou seja, entre as duas quadras do parque, a da Paulista (Norte) e a dos Jardins (Sul). Pela Avenida Paulista, seguimos, eu, o Miro e o Dionisio olhando atentamente para todos os rapazes que por ali passavam naquele momento. Começamos a descer a Alameda Casa Branca – transversal à Alameda Santos, quando de repente dois rapazes, um mulato e um branco, começaram a escalar de dentro para fora as grades de ferro que circundam todo o parque. De imediato, acreditei que aquilo não passava de uma brincadeira de moleques, mas os meus companheiros não pensavam o mesmo. Esperaram que os dois garotos terminassem a peraltice para entrarem em ação num estilo de fazer inveja aos atores de filmes policiais de Hollywood. De armas em punho e apontando para os meninos gritaram, polícia!, mãos na cabeça!, quietos! Em seguida, após a petrificação dos meninos assustados, passaram à revista mas nada encontraram e começaram com um interrogatório ao ar livre nunca visto antes por mim e talvez por nenhum outro jovem que não viveu nos tempos da ditadura militar. Eram perguntas de todo tipo e ameaças sem sentido que fariam arrepiar qualquer militante de defesa dos direitos humanos. Eis que o rapaz mulato, muito assustado e mais pressionado do que o outro, meio sem jeito, com voz embargada, confessou seu crime: disse que estava em práticas de sodomia com o seu amigo de escola.

Dioniso não conteve a gargalhada e olhando para o rapaz branco fez diversas piadinhas recheadas de palavras obscenas para humilhá-lo ainda mais. Ali mesmo, sob a alegação de ausência de documentos pessoais, algemou os dois com uma única algema presa numa haste da grade. Ato continuo deste espetáculo ao ar livre às 21:00 horas de uma noite de verão, outros dois rapazes abarrotados de sacolas, que caminhavam na mesma calçada foram interpelados pelo Miro, que ao averiguar as sacolas e constatar que eram brinquedos eletrônicos, todos sem nota fiscal e ainda havia no fundo de uma das sacolas uma réplica perfeita e contrabandeada de uma pistola automática modelo 765, de imediato, deu voz de prisão aos rapazes. Não demorou muito para o Alemão dar a sua contribuição também e mostrar sua eficiência, vindo da Alameda Santos, com a sua presa e como não podia deixar de ser, também algemada. Era um garoto negro, talvez de não mais de 16 anos, quase em prantos de medo e pavor. O Alemão foi logo dizendo, grampeei este aqui porque estava dando bobeira, subindo e descendo a rua e além do mais, contou uma estória pra boi dormir e não tem um documento sequer.

Diante daquele quadro patético e cruel, o que mais me chocava era o garoto negro que havia acabado de ser preso. Aproximei-me dele e lhe fiz algumas perguntas com o objetivo de encontrar um argumento para ser usado a seu favor e convencer os policiais para soltá-lo. Para minha surpresa, e uma vez que somente eu trajava terno e gravata, percebi que estava sendo confundido por todos os "bandidos" como se fosse o Delegado que comandava a diligência. Diante deste surrealismo inoportuno, compartilhei a idéia com o Dionísio que sorrindo me disse, vai em frente “delegado”. Por instantes e por vaidade intrínseca e incontrolável chamei a atenção de todos os rapazes por não portarem documentos, principalmente daquele garoto negro. Na introspeção e no exame de consciência imediato, senti na minha leviandade o quanto pode haver de tirania em quem se encontra com o poder de polícia e de opressão. É inexorável que aos fracos e oprimidos não cabe fazer escolhas todavia, paradoxalmente, a opressão é a arma mais usual dos fracos investidos de poder.

Com toda aquela gente capturada chamando a atenção de todos que passavam por ali a pé ou de carro, o Dionísio precisava, urgentemente, solicitar uma viatura. O meu telefone celular serviu-lhe de prontidão com eficiência e presteza, coisa rara naqueles tempos. Assim que recebi de volta o aparelho, resolvi dar notícias à minha esposa que me aguardava ansiosamente, pois eu havia lhe avisado de que estaria participando da tal diligência. Durante a conversa, notei que o Alemão atravessa a rua em diagonal na direção da praça e já estava empunhando a sua automática metálica, porém mantinha-a escondida junto a sua perna esquerda, uma vez que era canhoto. Na praça, naquele exato momento, dois rapazes haviam se encontrado e trocavam rápidas palavras. Isto foi o bastante para o Alemão apontar a arma para os rapazes e gritar, polícia! no chão!

Um dos rapazes obedeceu à ordem de prontidão e se jogou no chão. O outro, porém, insinuou com passos apressados, que iria correr. O Alemão percebendo a manobra, começou a atirar para o chão e a gritar mais alto, parado! polícia!

No momento dos disparos, três ou quatro, eu dizia a minha esposa que estava tudo bem e que tudo iria acabar bem. Do outro lado da linha, ouvi uma seqüência de perguntas do tipo, o que é isto? que barulho é este? tá tudo bem mesmo?

O rapaz se assustou ainda mais com os estampidos dos tiros e passou a correr desenfreadamente rua abaixo. No seu encalço partiu o Alemão obtendo, sem pedir, a ajuda de um vigia noturno que se jogou sobre o rapaz e conseguiu agarrá-lo.

Procurei acalmar a minha esposa balbuciando um monte de palavras, pois também pudera, estava mais nervoso do que ela presenciando a olho nu aquelas cenas que só se vêem no cinema e nunca na vida real. Como não havia mais algemas, o Alemão, agora, trazia a sua presa fugitiva, aplicando-lhe a chamada chave de braço, que de vez em quando era apertada por ele quando o rapaz lhe respondia qualquer coisa que não lhe agradava. O pobre rapaz, entre gemidos e grunhidos, tentava justificar a sua parada na praça, dizendo que estava apenas perguntando ao outro, se poderia lhe dar um cigarro, cuja estória o Alemão se recusava veementemente em acreditar e o acusava de contrabando de drogas.

Neste ínterim, a viatura chegou e todos os prisioneiros foram colocados, amassados e empurrados para dentro dela sob queixas e protestos.

Seguimos a viatura até a Delegacia. De lá, após algumas formalidades seguidas de promessas de captura do verdadeiro criminoso, etc, etc, entrei no meu automóvel, mais pensativo do que nunca, pois o pesadelo havia terminado. Não conseguia tirar nenhuma conclusão do que havia presenciado durante aquelas horas de alta tensão, nervosismo e atitudes contraditórias, pois aquela era a primeira vez que participava, sem saber, de uma caçada, muito menos de uma caçada humana na metrópole paulista, e tudo por causa de um toca-fitas que nunca foi encontrado e tão pouco aquele que o surrupiou à força, apontando uma arma para os meus miolos, num fim de tarde de um dia de verão.

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