sábado, 12 de setembro de 2009

Chuvas de Verão

Havia dias em que não chovia. Naquele dia, choveu. Foi uma chuva rápida, como são as chuvas de verão, densa, encorpada, de pingos grossos e incrivelmente cristalinos. Naquela tarde em que choveu, lembrei-me por um instante da minha infância já distante, época em que nunca perdia sequer uma chance de brincar quando chovia, ainda que sorrateiramente, com a água da chuva que caía, molhava minha roupa, pelo meu corpo escorria e sobre a terra poeirenta uma lama vermelha rapidamente fazia.
Ah! Como era gostoso sentir aquela água me tocando quase me abraçando, me envolvendo, aconchegante, com suas gotas mornas, as quais deixava que entrassem na minha boca sedenta, às vezes lambuzada e melada de doce de coco ou de chocolate. Ah! Como eram bons aqueles dias.
Havia dias em que o sol forte da tarde deixava todo mundo com preguiça gostosa que dava vontade de deitar sob a sombra de uma árvore e só o céu olhar. Nestes dias, eu procurava sempre meu cantinho no quintal de casa, que só eu mesmo conhecia e de lá; a rua, o quintal do vizinho, as nuvens que vinham e que iam, tudo, tudo eu avistava com meus olhos aguçados de menino.
Enquanto a chuva não vinha, eu comia frutinhas vermelhinhas, que de uma pequena árvore caíam sobre mim e faziam do chão um tapete vermelho. Tinham gosto apertado, mordaz, que não me esqueço jamais.
Sobre a enxurrada que se formava quando chovia, colocava para deslizar um barco feito de papel de caderno escolar e então, apenas com isto feliz me sentia. Corria ladeiras, seguia corredeiras, admirava com meus olhos curiosos os pequenos remansos que se formavam ao lado das sarjetas, mas no final assistia tristemente meu pequeno e desajeitado barco se desmanchar sob as marolas barrentas, como as nuvens que se dispersam de repente, assim como os pensamentos da gente que anuviam e desanuviam nossas mentes. Ele, o barquinho, se ia rua abaixo até desaparecer. Eu, o garoto, voltava chorando, mas outro barco - feito por alguém, estava à minha espera. Ah! Que pura felicidade de uma criança e seu brinquedo simples e frágil, feito de papel.
A chuva passava, o tempo mudava, as horas passavam, os dias também passavam e a minha infância lá se ia rapidamente e nem sequer percebia que um adulto em mim, aos poucos nascia.
Alguma coisa sempre se modificava quando o verão chegava. O barco já não era mais o mesmo - eu pouco me importava com ele, pois já havia outros brinquedos, nem mesmo a chuva era mais a mesma. Eu mesmo, já não era mais o mesmo. Meus pés já faziam poças maiores do que anteriormente das quais, dava-se para espirrar água barrenta bem longe. Meninice e traquinagens que só quem um dia fez, sabe como é.
Quando me dei conta, naquele dia em que choveu uma chuva de verão, todas estas lembranças passaram rapidamente pela minha mente. Senti vontade de tirar quase toda a roupa, para no meio da rua saltar como criança e deixar que aquela chuva de verão molhasse meu corpo, minhas roupas e me fizesse criança novamente como antigamente. Contudo, não havia terra na rua, tão pouco havia crianças, somente as do meu pensamento - devaneios matutinos, pensei.
Tive o impulso, mas não tive a coragem de me lançar sob a chuva que caía forte e fazia questão de me molhar até dentro do automóvel onde eu estava sentado, como se quisesse a todo custo que fosse para junto dela. Não resisti e deixei o vidro do carro semi-aberto para que ela, a chuva, ainda que pouco e bem pouco, pudesse meus braços e minha face molhar suavemente.
Satisfiz meu desejo, meu pequeno desejo, desejo de adulto ainda criança que não tinha com quem brincar, pois não havia crianças à minha volta.
Voltei-me para meus pensamentos com os quais, costumo navegar por uma imensidão sem fim de idéias e imaginações, e é através deles que viajo entre o passado, o presente e o futuro num segundo. Eis que, de repente, vejo ao meu lado, bem pertinho de mim um garoto de olhos amendoados e curiosos, cílios e cabelos fartos, sobrancelhas bem definidas, mãos delicadas com acentuada e peculiar envergadura no dedinho indicador quando de mãos abertas e no rosto delgado e delicado um sorriso maroto, moderado, quase que imperceptível, porém constante e marcante que dava gosto de ver. Aparentava não ter mais que 8 ou 9 anos de idade e como todo garoto desta idade, usava seu boné preferido e mascava um chiclete de bola. Sem que eu tivesse tempo de disparar a primeira pergunta, ele como quem adivinhasse minhas intenções, foi logo dizendo a dele.
 Por que você tá assim? Com cara de espanto.
Como se não soubesse do que ele falava, retruquei com ares de sabedoria.
 Assim como menino? O que você está querendo me dizer?
Quase que ao mesmo tempo em que eu terminava a pergunta, ele já ia logo emendando.
 Assim, ué... com esta cara triste, jururu, com cara de quem comeu e não gostou!
Percebi que tratava-se de um garoto sensível e muito esperto e a mim mesmo perguntei: como será que ele sabe que andei pensando na minha infância e agora me sinto um pouco triste deste jeito? Tentando desconversar fui dizendo o que me veio à cabeça.
 Garoto. Não estou triste não. Sabe o que que é... estava aqui olhando esta chuva bonita que está caindo e me lembrei dos tempos em que eu era criança... assim como você. Lembrei-me de que gostava de brincar na chuva com barquinhos e... novamente, o menino sabido atravessou a conversa não me deixando terminar, dizendo com objetividade e personalidade.
 Mas porquê ficar triste assim? Só porque você não brinca mais na chuva? Se você quiser posso brincar com você. Tá a fim?
Surpreso com o convite, balbuciei. O quê? Brincar na chuva? Não, isto não. Já foi a minha época. Não posso...
 Não pode? Só porque cresceu, usa calças compridas e tem que manter a pose de gente grande, não pode brincar? E daí? Não tem nada a ver. Vem, vamos nessa. Vamos ver quem chega primeiro no portão? Quem perder vai ser o cavalinho. Vou contar até treis enh! Foi saindo do carro sem se importar com a chuva e abrindo a porta pegou na minha mão começando a me puxar para fora do carro. Fiquei atordoado com aquela atitude inesperada e repentina. Tentando resistir, mas no fundo no fundo, querendo topar aquela brincadeira engraçada, porém sem nenhum sentido, fui saindo do carro sem oferecer muita resistência, sendo puxado pelo braço assim como, nós os adultos, fazemos com as crianças. Quando percebi, lá estava eu no meio do pátio de automóveis com a chuva que caía molhando gostosamente todo o meu corpo. Ah! Que sensação gostosa - reminiscência instantânea do passado distante. Parecia que era a primeira vez que aquilo me sucedia. O menino então gritou, pois a chuva era forte e fazia muito barulho.
 Vou contar até treis. Um, dois e... não tive tempo de dizer mais nada e ele já estava correndo como um coelho.
Dei meus primeiros passos e com grande impulso comecei a correr pra valer, pois percebi que se assim não fosse, não iria alcançá-lo. As passadas largas, com as quais eu contava para ganhar aquela corrida maluca, faziam espirrar água para todos os lados, mas as poças d’água, das quais eu tentava me esquivar, atrapalhavam-me terrivelmente. Percebi logo que não iria alcançar aquele garoto, que além de esperto era muito vigoroso. Não demorou muito para que a minha suspeita se confirmasse, quando me desvencilhei das poças d’água, percebi que ele havia chegado ao portão primeiro do que eu, apenas alguns segundos na minha frente, porém o suficiente para ganhar a corrida. As minhas largas passadas de nada me valeram.
Sorridente, vangloriando-se do seu grande feito, da sua vitória, do seu sucesso, o garoto com cara de grande satisfação e prazer, agarrado ao portão, olhava só para mim. Sentindo-me em frangalhos e amparado num veículo qualquer, mal conseguia vê-lo direito, os bofes estavam de fora, o fôlego já não me saía de dentro dos pulmões infectados de nicotina e fuligem da cidade grande, os cabelos e os sapatos encharcados, a roupa pesando quase que uma tonelada. Para cair de vez ao chão, bastava-me apenas um empurrão.
Subitamente, me dei conta de que o pior ainda estava por vir, porque afinal eu havia perdido a corrida e conseqüentemente teria que pagar a aposta, ou seja, teria - vejam só! que me servir de cavalinho para o menino travesso. Se perder a corrida já havia sido humilhante que dirá servir-se de cavalinho para um garoto gozador e brincalhão?
Cheguei ao portão do pátio. Para minha surpresa o menino não estava mais lá. Caminhei ainda por alguns metros à procura do meu pequeno amigo, que por certo estava prestes a pregar uma peça em mim, mas não o avistei. Não sabia seu nome, como poderia perguntar por ele? Intrigado com aquele súbito desaparecimento, segui a passos lentos em direção ao meu carro. Pensando sobre tudo o que havia acontecido tão repentinamente e de um modo surpreendente, procurei explicações mas não as encontrei. Teria sido um sonho? Não, não poderia ser, estivera o tempo todo acordado e minha roupa estava molhada. Então o que teria acontecido? Alucinação? Tenho vivido num corre-corre frenético com horas contadas pra tudo, será que havia enlouquecido de vez e agora restava-me apenas o caminho do hospício?
Sentei-me ao volante, enxuguei as mãos e o rosto de onde ainda pingavam gotas de chuva. Olhando ao redor atentamente à procura do menino, fui saindo lentamente daquele misterioso pátio dirigindo meu carro, quando ganhei a rua dei ainda uma última olhadela através do retrovisor, na esperança de ver ainda que distante aquele sorriso maroto, quase que imperceptível no rosto de traços delicados que dava gosto de ver.
Fui ao encontro do meu destino onde uma surpresa me aguardava. Ao deixar o carro uma pessoa desconhecida aproximou-se de mim e com delicadeza, retirou das minhas calças no meu traseiro algo que lá estivera grudado por algum tempo. Era um chiclete de bola, ou melhor, os restos de um chiclete deixado ali por um garoto maroto que eu conhecia muito bem. É certo que eu não sabia por onde ele andava, mas sabia que ele existia, existia sim em algum lugar deste ou de outro mundo. Quem sabe?

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