o verão de 1995, após um dia de trabalho, dirigia meu automóveltranqüilamente por uma das ruas mais charmosas da cidade de São Paulo, chamada Pamplona. Quando tive que parar o veículo, por causa do semáforo em vermelho, no cruzamento com a mais paulista das avenidas, a Avenida Paulista, não me dei conta de que estava com o vidro da porta do carro totalmente aberto, deixando-me a mercê de uma deliciosa brisa que soprava naquele fim de tarde, bem como de uma ligeira aproximação seguida de abordagem de um rapaz, mulato, quase negro, bigode ralo, expressão e sorriso dissimulado do ator de cinema norte-americano, Eddy Murphi.
De fato, não havia sorriso nenhum naquele semblante de rapaz urbano. O que se via num rosto ríspido encravado de um par de olhos vivos e sagazes, era um olhar de brilho intermitente, fugaz e penetrante na alma de quem seria mais uma de suas vítimas de ataque realizado com maestria de esperteza e rapidez, tal qual um leão no abate de uma gazela ferida. Naquele momento, na minha particular ingenuidade, achei que me fosse pedir alguma informação, uma ajuda ou outra coisa qualquer, porque são tantos que o fazem diariamente nesta grande cidade. Estava enganado, muito enganado.
Aquele sujeito me pediu algo que eu havia comprado há bem pouco tempo. Um toca-fitas de automóvel de último modelo, que havia sido instalado por precaução de forma portátil, ou seja, com um dispositivo chamado de bandeja, o qual permite ao seu proprietário levá-lo à tiracolo prevenindo-se assim de sorrateiros furtos.
Percebi, naquele momento, que estava prestes a entrar para as estatísticas de violência urbana de uma megalópole Sul Americana, quando vi, com esses olhos que alguém ainda fará talvez uso melhor, de relance, o brilho prateado de uma arma de fogo que era segurada com firmeza pela mão direita do rapaz.Ironicamente, a música que se ouvia do toca-fitas era The Wall, de Pink Floyd e havia sido gravada por um amigo que me dera de presente, na semana anterior, os dois volumes do álbum reproduzidos em duas fitas.
Fiquei indeciso diante do pedido, que àquela altura dos acontecimentos, já era uma ordem de vida ou morte. Olhava para o toca-fitas e para o rosto do rapaz balbuciando algumas palavras sem sentido, até que ele gritou nos meus sensíveis ouvidos.
- Anda logo! a esta ordem, entendi perfeitamente e com um movimento brusco retirei o toca-fitas do painel e passei-o às mãos do rapaz que rapidamente, o envolveu com a sua jaqueta cor de palha e em ziguezague entre os automóveis foi-se embora rua abaixo, desaparecendo em segundos, do alcance da minha vista.
Refeito do susto, após respirar fundo e me certificar de que ainda continuava vivo, segui dirigindo pela Avenida Paulista em direção ao meu lar aparentemente seguro. Subitamente tive a idéia de telefonar para a polícia chamando pelo número 190 com o telefone celular, algo ainda relativamente novo na época e de funcionamento precário, mas para a minha surpresa naquela chamada o aparelho funcionou muito bem. Narrei o ocorrido para a atendente e segui sua orientação de comparecer à delegacia de polícia mais próxima para registrar a ocorrência do delito. Lá, fiquei cerca de três horas e para o meu conforto psicológico, pude constatar de que havia muitos outros casos semelhantes ao meu. Exausto e indignado com aquela constatação, fui-me embora daquele lugar úmido, frio e de uma atmosfera horrível para a minha aguçada sensibilidade.
Indeciso sobre a compra de um outro aparelho toca-fitas de meu gosto, sobretudo seguro, algumas semanas se passaram. Finalmente optei, depois de muita reflexão, por um da mesma marca, porém de outro modelo, mais seguro ainda, ou seja, fixo no painel do automóvel e de frente removível, de modo que todas as vezes que eu deixava o carro em locais públicos ou até mesmo no estacionamento do prédio onde eu me residia, por precaução, retirava a frente do toca-fitas, colocava-a no seu estojo e a levava comigo como sefosse caixinha de óculos de sol. Certificava-me com esmero de todos os cuidados com a tal frente removível, sabendo também que se me fosse furtada por alguém, de nada serviria, pois havia nela um código de segurança que impedia seu funcionamento em outro aparelho. Lembro-me muito bem de que, por ocasião da compra,era isto o que me dizia o vendedor no seu forte apelo de venda.
Caro leitor, nesta vida há coincidências que se parecem com coisas de outro mundo. Foi isso mesmo o que conclui, dias depois de efetuada a compra do novo aparelho, quando de dentro do meu carro, parado diante do semáforo, há três ou quatro quadras do local onde havia acontecido aquele assalto, avistei alguém que me parecia familiar e trajava um terno, que se eu não me engano... era bege, quase cor de palha. Ele caminhava pela calçada a minha esquerda em sentido contrário da minha direção. Quando passou por mim, senti um calafrio, pois reconheci aquele olhar e o sorriso dissimulado, quase imperceptível, porém antes de pensar em alguma coisa ou pedir ajuda, senti também a sua presença e desta feita muito mais audaz, pois o cano do revólver já havia ultrapassado a fresta entre o vidro e a porta do carro e já tocava a minha cabeleira. Não pude conter a surpresa e disse em tom de lamentação. – De novo? Não é possível...
O rapaz ao me reconhecer, irritou-se mais ainda e repetiu a ordem e desta feita, dizendo que fosse retirada a frente do toca-fitas, como se ele soubesse de bate pronto que aquele modelo era o de frente removível. Não acreditei que o pesadelo recomeçaria naquele instante. Assustado, olhei para todos os lados tentando encontrar um olhar que pudesse perceber o que estava acontecendo, mas nada encontrei a não ser olhares vagos, de motoristas indiferentes e distantes. Pela segunda vez, vi a silhueta daquele rapaz se perder no emaranhado de carros que havia atrás de mim, levando consigo o toca-fitas protegido e seguro que acabara de adquirir.
De repente fui tomado de um acesso de raiva e de um sentimento de revolta inexplicáveis para um cidadão que detesta violência. Senti vontade de fazer justiça a qualquer custoe com as próprias mãos como o pior dos assassinos sanguinários. Enfurecido e decidido a levar adiante a minha sede de vingança contra tamanha ousadia, fui novamente para a mesma delegacia e lá narrei o fato com discurso de candidato a deputado. Exigi uma ação imediata da polícia, pois como cidadão honesto que sou, achei-me no direito de conseguir uma reparação daquela afronta, daquele abuso e da audácia a que havia sido submetido. Eis que, um cidadão qualquer ouvindo a minha história, contada em voz alta para o escrivão de polícia, se interessou e iniciou algumas indagações. Logo percebi que se tratava de um investigador de polícia. Ao final do depoimento, o policialconvidou-me para uma ronda próxima ao local do crime, juntamente com outros dois policiais que ali estavam também à paisana e escutando a conversa. Aceitei prontamente o convite e lá fomos nós para o Parque Trianon. Quando nos aproximávamos do local me foi pedido para entrar no carro dos policiais, um sedan Volkswagen, branco, cujo ano e modelo não me lembro. Neste momento pude observar melhor os meus guarda-costas, bem como tirar as minhas primeiras conclusões de suas personalidades.
Dionisio aparentava40 anos, talvez o mais velho dos três, mais de 1,80m de altura, magro,de cabelos ruivos, me pareceu o mais experiente, pois conduzia a diligência me fazendo muitas perguntas. É este? Perguntava Dionisio com rispidez. Como ele estava vestido mesmo? Trajava jeans? Insistia Dionisio, enquanto apontava para pacatos rapazes que transitavam pelas calçadas ou que se encontravam à espera da passagem de um ônibus.
Carlos Alberto, o Alemão, fumante inveterado, se parecia fisicamente um pouco com Dionisio, era loiro, olhos claros, alto, magro, usava óculos e bigodes. No entanto, ao contrário de Dionisio, aparentava um nervosíssimo inquietante, pois durante todo o tempo não tirava a mão direita do cabo da pistola automática que carregava na cintura.Podia jurar que ele era um paranóico na profissão, os fatos que sucederiam poderiam comprovar ou não a minha suspeita.
Valdomiro, o Miro, era moreno, um pouco mais baixo que os outros dois e mais jovem, mas seu físico era de longe muito inadequado para a função, necessitava de um bom regime, pois o excesso de gordura já transbordava a cintura das calças forçando-o a levantá-las a todo momento.
Estacionamos o carro na Rua Peixoto Gomide e iniciamos ao que chamei de "A Caçada do Parque Trianon". O Alemão, assim que desceu do carro, seguiu a passos largos para a Alameda Santos no seu ponto menos iluminado, ou seja, entre as duas quadras do parque, a da Paulista (Norte) e a dos Jardins (Sul). Pela Avenida Paulista, seguimos, eu, o Miro e o Dionisio olhando atentamente para todos os rapazes que por ali passavam naquele momento. Começamos a descer a Alameda Casa Branca – transversal à Alameda Santos, quando de repente dois rapazes, um mulato e um branco, começaram a escalar de dentro para fora as grades de ferro que circundam todo o parque. De imediato, acreditei que aquilo não passava de uma brincadeira de moleques, mas os meus companheiros não pensavam o mesmo. Esperaram que os dois garotos terminassem a peraltice para entrarem em ação num estilo de fazer inveja aos atores de filmes policiais de Hollywood. De armas em punho e apontando para os meninos gritaram, polícia!, mãos na cabeça!, quietos! Em seguida, após a petrificação dos meninos assustados, passaram à revista mas nada encontraram e começaram com um interrogatório ao ar livre nunca visto antes por mim e talvez por nenhum outro jovem que não viveu nos tempos da ditadura militar. Eram perguntas de todo tipo e ameaças sem sentido que fariam arrepiar qualquer militante de defesa dos direitos humanos. Eis que o rapaz mulato, muito assustado e mais pressionado do que o outro, meio sem jeito, com voz embargada, confessou seu crime: disse que estava em práticas de sodomia com o seu amigo de escola.
Dioniso não conteve a gargalhada e olhando para o rapaz branco fez diversas piadinhas recheadas de palavras obscenas para humilhá-lo ainda mais. Ali mesmo, sob a alegação de ausência de documentos pessoais, algemou os dois com uma única algema presa numa haste da grade. Ato continuo deste espetáculo ao ar livre às 21:00 horas de uma noite de verão, outros dois rapazes abarrotados de sacolas, que caminhavam na mesma calçada foram interpelados pelo Miro, que ao averiguar as sacolas e constatar que eram brinquedos eletrônicos, todos sem nota fiscal e ainda havia no fundo de uma das sacolas uma réplica perfeita e contrabandeada de uma pistola automática modelo 765, de imediato, deu voz de prisão aos rapazes. Não demorou muito para o Alemão dar a sua contribuição também e mostrar sua eficiência, vindo da Alameda Santos, com a sua presa e como não podia deixar de ser, também algemada. Era um garoto negro, talvez de não mais de 16 anos, quase em prantos de medo e pavor. O Alemão foi logo dizendo, grampeei este aqui porque estava dando bobeira, subindo e descendo a rua e além do mais, contou uma estória pra boi dormir e não tem um documento sequer.
Diante daquele quadro patético e cruel, o que mais me chocava era o garoto negro que havia acabado de ser preso. Aproximei-me dele e lhe fiz algumas perguntas com o objetivo de encontrar um argumento para ser usado a seu favor e convencer os policiais para soltá-lo. Para minha surpresa, e uma vez que somente eu trajava terno e gravata, percebi que estava sendo confundido por todos os "bandidos" como se fosse o Delegado que comandava a diligência. Diante deste surrealismo inoportuno, compartilhei a idéia com o Dionísio que sorrindo me disse, vai em frente “delegado”. Por instantes e por vaidade intrínseca e incontrolável chamei a atenção de todos os rapazes por não portarem documentos, principalmente daquele garoto negro. Na introspeção e no exame de consciência imediato, senti na minha leviandade o quanto pode haver de tirania em quem se encontra com o poder de polícia e de opressão.É inexorável que aos fracos e oprimidos não cabe fazer escolhas todavia, paradoxalmente, a opressão é a arma mais usual dos fracos investidos de poder.
Com toda aquela gente capturada chamando a atenção de todos que passavam por ali a pé ou de carro, o Dionísio precisava, urgentemente, solicitar uma viatura. O meu telefone celular serviu-lhe de prontidão com eficiência e presteza, coisa rara naqueles tempos. Assim que recebi de volta o aparelho, resolvi dar notícias à minha esposa que me aguardava ansiosamente, pois eu havia lhe avisado de que estaria participando da tal diligência. Durante a conversa, notei que o Alemão atravessa a rua em diagonal na direção da praça e já estava empunhando a sua automática metálica, porém mantinha-a escondida junto a sua perna esquerda, uma vez que era canhoto. Na praça, naquele exato momento, dois rapazes haviam se encontrado e trocavam rápidas palavras. Isto foi o bastante para o Alemão apontar a arma para os rapazes e gritar, polícia! no chão!
Um dos rapazes obedeceu à ordem de prontidão e se jogou no chão. O outro, porém, insinuou com passos apressados, que iria correr. O Alemão percebendo a manobra, começou a atirar para o chão e a gritar mais alto, parado! polícia!
No momento dos disparos, três ou quatro, eu dizia a minha esposa que estava tudo bem e que tudo iria acabar bem. Do outro lado da linha, ouvi uma seqüência de perguntas do tipo, o que é isto? que barulho é este? tá tudo bem mesmo?
O rapaz se assustou ainda mais com os estampidos dos tiros e passou a correr desenfreadamente rua abaixo. No seu encalço partiu o Alemão obtendo, sem pedir, a ajuda de um vigia noturno que se jogou sobre o rapaz e conseguiu agarrá-lo.
Procurei acalmar a minha esposa balbuciando um monte de palavras, pois também pudera, estava mais nervoso do que ela presenciando a olho nu aquelas cenas que só se vêem no cinema e nunca na vida real. Como não havia mais algemas, o Alemão, agora, trazia a sua presa fugitiva, aplicando-lhe a chamada chave de braço, que de vez em quando era apertada porele quando o rapaz lhe respondia qualquer coisa que não lhe agradava. O pobre rapaz, entre gemidos e grunhidos, tentava justificar a sua parada na praça, dizendo que estava apenas perguntando ao outro, sepoderia lhe dar um cigarro, cuja estória o Alemão se recusava veementemente em acreditar e o acusava de contrabando de drogas.
Neste ínterim, a viatura chegou e todos os prisioneiros foram colocados, amassados eempurrados para dentro dela sob queixas e protestos.
Seguimos a viatura até a Delegacia. De lá, após algumas formalidades seguidas de promessas de captura do verdadeiro criminoso, etc, etc, entrei no meu automóvel, mais pensativo do que nunca, pois o pesadelo havia terminado. Não conseguia tirar nenhuma conclusão do que havia presenciado durante aquelas horas de alta tensão, nervosismo e atitudes contraditórias, pois aquela era a primeira vez que participava, sem saber, de uma caçada, muito menos de uma caçada humana na metrópole paulista, e tudo por causa de um toca-fitas que nunca foi encontrado e tão pouco aquele que o surrupiou à força, apontando uma arma para os meus miolos, num fim de tarde de um dia de verão.
Tílburi ainda era o meio de transporte mais utilizado em meados do século passado, para viagens curtas como por exemplo, do bairro ao centro da cidade e vice-versa. O veículo, de tração animal, conduzia vagarosamente seus passageiros – no máximo dois, pelas ruas esburacadas, poeirentas, algumas calçadas de paralelepípedos ou pelos morros do Rio de Janeiro, a capital do Brasil na época. Com uma viagem, ou até mesmo com um passeio de poucos quilômetros, levava-se horas. Para o incansável cocheiro que seguia a pé ao lado do veículo transportador, o tempo da viagem pouco lhe importava, a satisfação do cliente, quase sempre um cavalheiro acompanhado de uma donzela, era muito mais importante, pois lhe dava credibilidade para a viagem de retorno ou mesmo para outras futuras. Além do mais, gozava de boa reputação profissional, o cocheiro que atenuava as sacudidelas durante o percurso e ainda mantinha silêncio perpétuo e boca fechada após o seu final, de tudo que seus ouvidos captavam das confidências íntimas dos ilustres passageiros. O tempo passou, a revolução industrial pós-guerra chegou ao país, o Rio de Janeiro deixou de ser a capital do Brasil, os tílburis viraram peças de museus e os cocheiros... bem, os cocheiros se aposentaram ou mudaram de profissão. No século XX dirige-se automóveis velozes, aviões rapidíssimos e até foguetes mais velozes ainda e talvez, no próximo século que se aproxima, espaçonaves serão um dos meios de transporte mais utilizados, e finalmente o homem abandonará o uso daquela que foi uma grande invenção e que lhe serviu por milhares de anos, a roda. Também, nos dias de hoje, nos mais longínquos lugares deste planeta, dirige-se trens de ferro sobre trilhos de ferro – uma invenção do século XVIII, movidos a vapor no passado e hoje a óleo diesel ou a eletricidade. Há trens famosos que foram parar nas telas de Hollywood. O Oriente Express é um deles. Outros, como o velocíssimo trem bala japonês e o que interliga Londres à Paris, são admiráveis e verdadeiros colossos de rapidez e conforto, sobretudo de segurança no transporte coletivo. Coube ao segundo, o trem anglo-saxão, através do mais extraordinário túnel construído pelo homem sob o oceano, numa mostra verdadeira de ousadia da engenharia moderna, o papel de entrar para a história ao satisfazer o desejo muito antigo de Ingleses e Franceses, de ir e vir entre as suas capitais sem molhar a ponta dos pés. Nas grandes cidades, há trens de ferro elétricos e predominantemente urbanos chamados de Metropolitanos ou simplesmente de Metrô. Circulam por túneis construídos sob prédios, ruas, avenidas e transportam grande quantidade de passageiros. O mais antigo metrô é o da cidade de Londres, inaugurado em 1.934. O de Nova York é famoso pelo seu tamanho e também pelo seu estado de degradação, mas nem por isso deixa de ser eficiente e pontual. Aqui, em São Paulo, temos o nosso Metrô também, cuja construção se iniciou em 1.968 e ainda não terminou. Entrou em operação comercial em 1975 transportando pouca gente assustada com o trem que “entrava no buraco”. Hoje, transporta 2,5 milhões de passageiros por dia, mas mesmo assim não é suficiente. Só quem se utiliza deste meio de transporte todos os dias nos seus horários de pico, pode afirmar o quanto é difícil e angustiante uma viagem que poderia ser agradável e confortável. Há atualmente, três linhas em funcionamento e uma outra quarta em planejamento. Entretanto, as diferentes características das linhas principais em funcionamento no metrô de São Paulo, a Norte/Sul chamada também de linha 1 ou Azul e a Leste/Oeste, também chamada de linha 3 ou Vermelha, são facilmente notadas por qualquer passageiro. A primeira, a linha Azul, possui vagões mais antigos construídos sob licença de uma empresa norte americana com especificações apropriadas para a população do seu país de origem, ou seja, menor área envidraçada, menor espaço livre nos corredores – talvez por lá a maioria dos passageiros viajam sentados, maior altura interna – a estatura do cidadão norte-americano está acima de 1,70m e sistema de ventilação forçada eficiente, já que nunca seria necessário ar refrigerado num país de temperatura média abaixo de 20º C. A segunda, a linha Vermelha, possui vagões de fabricação nacional, com grande área envidraçada – própria para apreciação da paisagem urbanística da metrópole, maior espaço interno – pois, sabe-se que ainda vai se levar muito tempo para desafogar o sistema, logo os vagões viajarão sempre lotados de passageiros, menor altura interna – afinal, o brasileiro médio não passa de 1,70m e por último, um sistema de ventilação forçada ineficiente, uma vez que todos os trens, nota-se pelo tipo de saída de ar existente, seriam dotados de ar refrigerado portanto, um sistema eficiente de ventilação forçada não seria muito necessário. Ocorre que, não há um só trem com sistema de ar refrigerado funcionando logo, em dias de muito calor, uma viagem ainda que entre poucas estações, transforma-se num verdadeiro martírio sufocante e escaldante portanto, a pergunta não pode deixar de ser formulada: será que acabou a verba destinada ao ar refrigerado ou alguém se esqueceu de comprar os equipamentos? Nota-se também, que tem havido progressos nas adaptações dos trens para as condições da população brasileira, porém em apenas alguns vagões, como por exemplo, a colocação de barras de apoio adicionais e transversais as quais facilitam um pouco a vida dos passageiros que viajam em pé, assim dois passageiros em pé quase ocupam o mesmo espaço, ficam grudados um ao outro, ambos apoiados nas barras. Caso o passageiro que esteja na sua frente seja menor do que você, ele ficará encaixado embaixo do seu braço, caso contrário recomendo-lhe a mudar de posição, isto é, se você conseguir se mover. Para quem não aprecia o contato humano, corpo a corpo, o uso do metrô não é recomendável. Têm sido interessantes as tentativas por parte da direção do Metrô de educar a população para o embarque nas estações de maior volume de passageiros, como por exemplo na estação Sé. Lá, nas plataformas, nos locais onde exatamente se abrem as portas dos vagões durante as paradas dos trens, para orientar e organizar o embarque, já se utilizou de faixas sinalizadas no chão no sentido perpendicular às portas. Também houve uma tentativa no sentido ziguezague, mas se conseguiu pouco resultado, porque o volume de passageiros é imenso e não há quem fique olhando para o chão para se posicionar para o embarque dentro das faixas que se assemelham a um labirinto. Só está faltando a tentativa de sinalizar as faixas no sentido oblíquo e quem sabe, pelo fato de posicionar o passageiro de um modo mais natural na sua chegada, sem que se sinta obrigado a olhar constantemente para o chão, como se estivesse à procura de uma saída do labirinto, consiga-se assim resultados melhores. Tentativa por tentativa, vale mais uma, pelo menos. Na linha Norte/Sul percebe-se que ainda não se utiliza a capacidade total de transporte de passageiros, pois ainda é possível nos horários de pico entrar nos vagões sem ter de empurrar alguém para ocupar um espaço vazio, já na linha Leste/Oeste há tempos que há sinais de saturação nos horários de pico. Em dias que há problemas operacionais ou atraso por causa de chuvas, face ao turbilhão de gente se amontoando nas plataformas a cada minuto, é temeroso tentar um embarque na estação Sé. Em havendo pânico por qualquer motivo as conseqüências são imprevisíveis, mas felizmente, até agora, não se tem notícia de um fato como este. Quando se está viajando no sentido bairro/centro na linha leste/oeste, no horário de pico da manhã, nas estações que antecedem a estação Sé, o embarque torna-se quase impossível e às vezes, o melhor que o passageiro possa fazer é recuar quatro ou cinco estações tomando o trem no sentido centro/bairro e mesmo assim, na medida que este se aproxima da estação Sé, o volume de pessoas dentro dos vagões vai aumentando mais e mais, apertando, amassando, arrochando todos contra todos, literalmente até o limite máximo da lei de Newton – dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo, ou até onde o limite da educação permite. Nessas situações, nota-se a angustia generalizada no semblante das pessoas que aguardam ansiosamente pela chegada na estação Sé e a fobia, de carona com a ansiedade, aumenta consideravelmente a cada estação ou parada forçada do trem entre uma e outra estação. O desembarque na estação Sé é desastroso e só comparável com o estouro de uma boiada. Há sempre pessoas mal informadas ou não acostumadas com o uso diário do metrô e não percebem que, se não desembarcarem juntas com a multidão, vão atrapalhar e acabam sendo impiedosamente atropeladas, pois quem não consegue abandonar o trem em segundos, só poderá fazê-lo na próxima estação, pois as portas se fecharão automaticamente e por segurança não reabrirão a pedido de alguém, por mais importante e ilustre que seja o passageiro, cavalheiro ou donzela. No horário de pico, nos displayers eletrônicos informativos espalhados pelas estações, deveria haver o seguinte aviso: "O ministério dos transportes adverte: o uso do metrô nos horários de pico, não é recomendado para crianças menores de 10 anos, gestantes e idosos". Todas essas pessoas nessas condições desfavoráveis são massacradas, não há como escapar. Caro leitor, em tudo na vida que se pratica constantemente pelo hábito ou pelo dever, sempre se descobre técnicas que se aperfeiçoam ao longo do tempo, conforme a prática. Como fruto de minha observação, posso lhe assegurar que o passageiro que tenha embarcado no último vagão do trem e no desembarque na estação Sé (sempre ela, pois é a estação de maior volume de passageiros e de cruzamento de linhas), caso se veja obrigado a atravessar a plataforma de embarque/desembarque de passageiros por toda a sua extensão, caberá a ele apenas 10 segundos de paciência posicionando-se na plataforma ao lado da porta da qual acabara de sair, para aguardar que todos os passageiros abandonem seus respectivos vagões. Em seguida, seguir na direção do vagão mestre, o principal, no sentido da próxima porta e quando lá chegar, passados os 10 segundos, todos os passageiros daquele compartimento já estarão se distanciando dali e assim, sucessivamente ocorrerá em todos os vagões. Moral da história: ele, o nosso passageiro experiente, não se chocará com nenhum outro, pois todos já terão saídos apressados para o embarque em outro trem ou abandono da estação, deixando livre a área da plataforma de desembarque. Apesar de todas as deficiências oriundas da complexidade do sistema é impossível imaginar a cidade de São Paulo sem o seu metrô. Seria o caos e milhões de pessoas não conseguiriam sequer chegar nos seus locais de trabalho. Com todos os seus problemas, o metrô ainda está longe de ser comparado com a degradação existente nos trens do subúrbio os quais, ironicamente, em alguns trechos da linha Leste/Oeste, seguem lado a lado com os do metrô e invariavelmente com suas portas escancaradas, deixando à mostra seus surfistas de trem dependurados à espera da morte. É frustrante admitir que há desgraças piores do que as suas e ter de contentar-se com o razoável, mesmo sabendo que poderia ter o melhor, pagando muito menos. Esta é a tônica no Brasil de hoje revestido de diversas facetas sociais nem todas dignas de um povo de boa-fé e esperançoso. Até quando? Só o tempo e a história dirão.
Havia dias em que não chovia. Naquele dia, choveu. Foi uma chuva rápida, como são as chuvas de verão, densa, encorpada, de pingos grossos e incrivelmente cristalinos. Naquela tarde em que choveu, lembrei-me por um instante da minha infância já distante, época em que nunca perdia sequer uma chance de brincar quando chovia, ainda que sorrateiramente, com a água da chuva que caía, molhava minha roupa, pelo meu corpo escorria e sobre a terra poeirenta uma lama vermelha rapidamente fazia. Ah! Como era gostoso sentir aquela água me tocando quase me abraçando, me envolvendo, aconchegante, com suas gotas mornas, as quais deixava que entrassem na minha boca sedenta, às vezes lambuzada e melada de doce de coco ou de chocolate. Ah! Como eram bons aqueles dias. Havia dias em que o sol forte da tarde deixava todo mundo com preguiça gostosa que dava vontade de deitar sob a sombra de uma árvore e só o céu olhar. Nestes dias, eu procurava sempre meu cantinho no quintal de casa, que só eu mesmo conhecia e de lá; a rua, o quintal do vizinho, as nuvens que vinham e que iam, tudo, tudo eu avistava com meus olhos aguçados de menino. Enquanto a chuva não vinha, eu comia frutinhas vermelhinhas, que de uma pequena árvore caíam sobre mim e faziam do chão um tapete vermelho. Tinham gosto apertado, mordaz, que não me esqueço jamais. Sobre a enxurrada que se formava quando chovia, colocava para deslizar um barco feito de papel de caderno escolar e então, apenas com isto feliz me sentia. Corria ladeiras, seguia corredeiras, admirava com meus olhos curiosos os pequenos remansos que se formavam ao lado das sarjetas, mas no final assistia tristemente meu pequeno e desajeitado barco se desmanchar sob as marolas barrentas, como as nuvens que se dispersam de repente, assim como os pensamentos da gente que anuviam e desanuviam nossas mentes. Ele, o barquinho, se ia rua abaixo até desaparecer. Eu, o garoto, voltava chorando, mas outro barco - feito por alguém, estava à minha espera. Ah! Que pura felicidade de uma criança e seu brinquedo simples e frágil, feito de papel. A chuva passava, o tempo mudava, as horas passavam, os dias também passavam e a minha infância lá se ia rapidamente e nem sequer percebia que um adulto em mim, aos poucos nascia. Alguma coisa sempre se modificava quando o verão chegava. O barco já não era mais o mesmo - eu pouco me importava com ele, pois já havia outros brinquedos, nem mesmo a chuva era mais a mesma. Eu mesmo, já não era mais o mesmo. Meus pés já faziam poças maiores do que anteriormente das quais, dava-se para espirrar água barrenta bem longe. Meninice e traquinagens que só quem um dia fez, sabe como é. Quando me dei conta, naquele dia em que choveu uma chuva de verão, todas estas lembranças passaram rapidamente pela minha mente. Senti vontade de tirar quase toda a roupa, para no meio da rua saltar como criança e deixar que aquela chuva de verão molhasse meu corpo, minhas roupas e me fizesse criança novamente como antigamente. Contudo, não havia terra na rua, tão pouco havia crianças, somente as do meu pensamento - devaneios matutinos, pensei. Tive o impulso, mas não tive a coragem de me lançar sob a chuva que caía forte e fazia questão de me molhar até dentro do automóvel onde eu estava sentado, como se quisesse a todo custo que fosse para junto dela. Não resisti e deixei o vidro do carro semi-aberto para que ela, a chuva, ainda que pouco e bem pouco, pudesse meus braços e minha face molhar suavemente. Satisfiz meu desejo, meu pequeno desejo, desejo de adulto ainda criança que não tinha com quem brincar, pois não havia crianças à minha volta. Voltei-me para meus pensamentos com os quais, costumo navegar por uma imensidão sem fim de idéias e imaginações, e é através deles que viajo entre o passado, o presente e o futuro num segundo. Eis que, de repente, vejo ao meu lado, bem pertinho de mim um garoto de olhos amendoados e curiosos, cílios e cabelos fartos, sobrancelhas bem definidas, mãos delicadas com acentuada e peculiar envergadura no dedinho indicador quando de mãos abertas e no rosto delgado e delicado um sorriso maroto, moderado, quase que imperceptível, porém constante e marcante que dava gosto de ver. Aparentava não ter mais que 8 ou 9 anos de idade e como todo garoto desta idade, usava seu boné preferido e mascava um chiclete de bola. Sem que eu tivesse tempo de disparar a primeira pergunta, ele como quem adivinhasse minhas intenções, foi logo dizendo a dele. Por que você tá assim? Com cara de espanto. Como se não soubesse do que ele falava, retruquei com ares de sabedoria. Assim como menino? O que você está querendo me dizer? Quase que ao mesmo tempo em que eu terminava a pergunta, ele já ia logo emendando. Assim, ué... com esta cara triste, jururu, com cara de quem comeu e não gostou! Percebi que tratava-se de um garoto sensível e muito esperto e a mim mesmo perguntei: como será que ele sabe que andei pensando na minha infância e agora me sinto um pouco triste deste jeito? Tentando desconversar fui dizendo o que me veio à cabeça. Garoto. Não estou triste não. Sabe o que que é... estava aqui olhando esta chuva bonita que está caindo e me lembrei dos tempos em que eu era criança... assim como você. Lembrei-me de que gostava de brincar na chuva com barquinhos e... novamente, o menino sabido atravessou a conversa não me deixando terminar, dizendo com objetividade e personalidade. Mas porquê ficar triste assim? Só porque você não brinca mais na chuva? Se você quiser posso brincar com você. Tá a fim? Surpreso com o convite, balbuciei. O quê? Brincar na chuva? Não, isto não. Já foi a minha época. Não posso... Não pode? Só porque cresceu, usa calças compridas e tem que manter a pose de gente grande, não pode brincar? E daí? Não tem nada a ver. Vem, vamos nessa. Vamos ver quem chega primeiro no portão? Quem perder vai ser o cavalinho. Vou contar até treis enh! Foi saindo do carro sem se importar com a chuva e abrindo a porta pegou na minha mão começando a me puxar para fora do carro. Fiquei atordoado com aquela atitude inesperada e repentina. Tentando resistir, mas no fundo no fundo, querendo topar aquela brincadeira engraçada, porém sem nenhum sentido, fui saindo do carro sem oferecer muita resistência, sendo puxado pelo braço assim como, nós os adultos, fazemos com as crianças. Quando percebi, lá estava eu no meio do pátio de automóveis com a chuva que caía molhando gostosamente todo o meu corpo. Ah! Que sensação gostosa - reminiscência instantânea do passado distante. Parecia que era a primeira vez que aquilo me sucedia. O menino então gritou, pois a chuva era forte e fazia muito barulho. Vou contar até treis. Um, dois e... não tive tempo de dizer mais nada e ele já estava correndo como um coelho. Dei meus primeiros passos e com grande impulso comecei a correr pra valer, pois percebi que se assim não fosse, não iria alcançá-lo. As passadas largas, com as quais eu contava para ganhar aquela corrida maluca, faziam espirrar água para todos os lados, mas as poças d’água, das quais eu tentava me esquivar, atrapalhavam-me terrivelmente. Percebi logo que não iria alcançar aquele garoto, que além de esperto era muito vigoroso. Não demorou muito para que a minha suspeita se confirmasse, quando me desvencilhei das poças d’água, percebi que ele havia chegado ao portão primeiro do que eu, apenas alguns segundos na minha frente, porém o suficiente para ganhar a corrida. As minhas largas passadas de nada me valeram. Sorridente, vangloriando-se do seu grande feito, da sua vitória, do seu sucesso, o garoto com cara de grande satisfação e prazer, agarrado ao portão, olhava só para mim. Sentindo-me em frangalhos e amparado num veículo qualquer, mal conseguia vê-lo direito, os bofes estavam de fora, o fôlego já não me saía de dentro dos pulmões infectados de nicotina e fuligem da cidade grande, os cabelos e os sapatos encharcados, a roupa pesando quase que uma tonelada. Para cair de vez ao chão, bastava-me apenas um empurrão. Subitamente, me dei conta de que o pior ainda estava por vir, porque afinal eu havia perdido a corrida e conseqüentemente teria que pagar a aposta, ou seja, teria - vejam só! que me servir de cavalinho para o menino travesso. Se perder a corrida já havia sido humilhante que dirá servir-se de cavalinho para um garoto gozador e brincalhão? Cheguei ao portão do pátio. Para minha surpresa o menino não estava mais lá. Caminhei ainda por alguns metros à procura do meu pequeno amigo, que por certo estava prestes a pregar uma peça em mim, mas não o avistei. Não sabia seu nome, como poderia perguntar por ele? Intrigado com aquele súbito desaparecimento, segui a passos lentos em direção ao meu carro. Pensando sobre tudo o que havia acontecido tão repentinamente e de um modo surpreendente, procurei explicações mas não as encontrei. Teria sido um sonho? Não, não poderia ser, estivera o tempo todo acordado e minha roupa estava molhada. Então o que teria acontecido? Alucinação? Tenho vivido num corre-corre frenético com horas contadas pra tudo, será que havia enlouquecido de vez e agora restava-me apenas o caminho do hospício? Sentei-me ao volante, enxuguei as mãos e o rosto de onde ainda pingavam gotas de chuva. Olhando ao redor atentamente à procura do menino, fui saindo lentamente daquele misterioso pátio dirigindo meu carro, quando ganhei a rua dei ainda uma última olhadela através do retrovisor, na esperança de ver ainda que distante aquele sorriso maroto, quase que imperceptível no rosto de traços delicados que dava gosto de ver. Fui ao encontro do meu destino onde uma surpresa me aguardava. Ao deixar o carro uma pessoa desconhecida aproximou-se de mim e com delicadeza, retirou das minhas calças no meu traseiro algo que lá estivera grudado por algum tempo. Era um chiclete de bola, ou melhor, os restos de um chiclete deixado ali por um garoto maroto que eu conhecia muito bem. É certo que eu não sabia por onde ele andava, mas sabia que ele existia, existia sim em algum lugar deste ou de outro mundo. Quem sabe?
á sempre aqueles dias em que, apesar da vida atribulada que levamos,
percebemos com maior facilidade o que ocorre à nossa volta e então refletimos
como se estivéssemos de um outro ponto de vista, de onde então passamos a ver a
realidade como ela é. Podemos ver com os olhos e sentir com a alma coisas e
fatos que fazemos de conta que não percebemos e muito menos sentimos, dada a
dureza em que se encontram nossos corações, nestes dias tão modernos em que
vivemos.
Percebo que hoje em dia as pessoas já não
conseguem mais sensibilizar-se com coisa alguma. Nem ao menos com uma criança
de pés descalços, nariz escorrendo, olhos fundos e tristes, que vem até à porta
do nosso carro pedir uma moeda. Afinal, são tantas que perambulam pela cidade,
que parece não dar mais para sentir pena de todas elas, como se não houvesse,
dentro de nós, sentimentos suficientes para todas.
Os jornais trazem notícias de guerras, fome,
miséria epidemias por toda parte do planeta, e isto também já não assusta mais.
Afinal, são tantas guerras, tanta fome, tanta miséria e epidemia que ninguém
mais se preocupa ou se quer ao menos comenta com ares de espanto que na Somália
no Zaire ou qualquer um destes países miseráveis do terceiro mundo, estão
morrendo 4.000 pessoas por dia de fome, cólera ou de bala de fuzil fabricado
nos E.U.A.
Recebo diariamente na minha mesa de trabalho
dezenas de currículos. São eles dos mais variados tipos, podem ser enviados por um jovem à procura do primeiro
emprego, ou até pelo executivo que não conseguiu se safar do último corte de
pessoal da empresa que trabalhava. Passo os olhos em cada um deles, imaginando
o rosto do seu dono. Pode ser um pai de família desempregado há meses,
esperançoso por receber um telefonema para uma entrevista que eu sei que esta
não se realizará tão cedo. Mas, pode ser também o jovem forçado pelas
dificuldades financeiras da família, que teve de se lançar despreparadamente
num mercado de trabalho cada vez mais competitivo e exigente. Eu sei também que
este jovem não terá a mínima chance, simplesmente porque ela não existe e se
existe, é rara como um diamante.
Em vista de tudo isto, acabo por concluir
paradoxalmente que nos dias de hoje - quem tem um emprego é como quem tem um
olho na terra de cegos, e a ele as pessoas ficam algemadas mesmo se o trabalho
e o salário não atendam seus desejos. Seria ousadia demais imaginar que uma
discussão com o chefe seria motivo para procurar outro emprego, já que ele não
existe, ou será muito difícil de ser conseguido. Desta forma, as pessoas se
sujeitam a tudo e podam-se anulam-se e perdem a autoestima, a autoconfiança e a
criatividade, tornando-se cada vez mais parasitas das organizações.
É raro ver um rosto alegre nas ruas desta
megalópole chamada São Paulo. De um modo geral todos transientes demonstram
claramente uma seriedade exagerada como se a vida fosse feita só de sofrimentos
e preocupações, e nela não houvesse lugar para mais nada. Nem mesmo a conquista
do título de tetra campeão mundial de futebol pela seleção Brasileira, foi
capaz de devolver um pouco de alegria ao povo que nem se quer soube comemorar o
título inédito, pois já havia passado tanto tempo desde o último que ficou
esquecido de como comemorar novamente.
Algo é preciso mudar neste país de belezas e
recursos naturais maravilhosos e de povo pacato e esperançoso sem ódio e rancor
no coração. Certamente não é o que propõe o líder do movimento separatista do
estado de Santa Catarina, que ao invés de somar esforços para melhorar a nação,
pretende dividir estupidamente o país que acolheu de braços abertos seus
ancestrais vindos da Europa pós guerra, e ofereceu a eles as mais férteis
terras do sul que se fossem as do nordeste, certamente não teriam eles
prosperados tanto.
Propor mudanças teóricas é muito fácil,
difícil é tomar a iniciativa e fazê-las na prática como está fazendo o Betinho
com a sua campanha contra a fome. Se para cada 1.000 habitantes deste país
tivéssemos pelo menos um Betinho, algo começaria a mudar e ainda mais se este Betinho
fosse de uma família abastada como tantas que temos no país.
A riqueza de um povo não é o que ele possui,
mas sim a capacidade que ele tem de produzir, e esta capacidade está provada
que o povo brasileiro à possui o suficiente. Mas para onde vai toda a riqueza
produzida no país? A cada ano batemos recordes de produção de grãos, recordes e
mais recordes de todo tipo de riqueza, e o povo continua pobre e miserável
batendo nas portas dos poucos privilegiados que conseguiram com muito esforço
uma vida um pouco mais digna do que a maioria dos seus compatriotas.
A impressão que fica é que parece que todos
nós brasileiros estamos adormecidos e anestesiados com tudo que acontece à
nossa volta. Se por um lado estamos insensíveis com as dores do próximo, por
outro estamos indiferentes com o futuro deste país que deixaremos para os
nossos filhos, e a nós neste momento, parece que só nos importa sobreviver como
se não houvesse a menor diferença entre sobreviver e viver dignamente como ser
social que somos.
A sociedade brasileira precisa deixar sua
timidez de lado e se mobilizar de todas as maneiras, sejam elas sociais,
econômicas, filantrópicas, etc. Enfim, formar opinião e consenso sobre os males
que a afetam e passar a combatê-los diretamente na raiz, ou seja; cidadão por
cidadão, comunidade por comunidade e assim por diante.
Não adianta mais se queixar e culpar o
governo dos males que sofrem a sociedade. Se antigamente a culpa era do regime
de governo, agora não é mais, pois a ditadura já se foi à muito tempo, saindo
pelas portas do fundo do Palácio da Alvorada em Brasília. Estamos vivendo num
país democrático que tem que ser governado pelo seu próprio povo, e este por
sua vez, tem o dever de definir o seu futuro de uma única maneira, ou seja;
elegendo seus legítimos representantes através do VOTO.
Porém, não poderá ser o voto simpático, ou o
voto interesseiro, ou ainda o voto alienado terá que ser o voto responsável.
O voto responsável é aquele que, por um lado
representa a confiança absoluta de quem o concede, por outro determina à quem o
recebe uma responsabilidade baseada no patriotismo na cidadania e sobretudo no
dever e na obrigação de representar desinteressadamente
os anseios e desejos da sociedade que o elegeu.
Por isto tudo que foi dito, nos restam duas
coisas ainda:
1) Torcer para que nós os brasileiros elejam
sabiamente seus representantes nas próximas e importantes eleições deste ano e;
2) Gritar, em altos brados: BRASILEIROS DESPERTEM PARA O FUTURO, O
BRASIL, É NOSSO.
***
Confissões De
Um Aprendiz De Escritor
C
omo gostaria de poder escrever muito mais que o tempo me permite
atualmente. Há bem pouco tempo, descobri este prazer que me faz sentir tão bem,
muito embora e quase sempre, o pouco conhecimento deste idioma tão rico, o
português, me leva a cometer erros absurdos e freqüentes, os quais necessitam
de correção. Ainda bem, que minha mulher é entendida no assunto pra chuchu.
Vivo numa rotina alucinante, como é comum
para a maioria dos paulistanos desta cidade gigantesca que é São Paulo. Por
isso, com o pouco tempo que me resta e as vezes madrugada adentro, faço dele
estes momentos especiais para mim.
Eu sei, que poucas pessoas terão a paciência
necessária para ler os textos que costumeiramente venho criando. Alguns amigos
de onde trabalho, e que hoje a meu pedido lêem alguma coisa que escrevo; logo,
logo com eles não mais me sentirei à vontade para pedir que os lêem, pois acho
que vão dizer entre eles:
¾ Lá vem aquele sujeito de novo com alguma coisa para eu
ler, já não tenho tempo nem para ler a minha revista preferida e ele não
desiste de escrever as suas estórias e pedir para a gente ler.
Os meus filhos, provavelmente se
interessarão por eles, mas talvez não terão também muito tempo, pois acho que
daqui a alguns anos os livros serão curtíssimos e editados pelo computador com
recursos gráficos e imagens animadas — logo, serão muito mais interessantes do
que os meus pobres textos de estórias, contos e fantasias.
É uma pena que desde já, os livros não podem
serem escritos como antigamente, ou seja; contarem sonhos. Os livros atuais
devem ser breves, objetivos e se possível proporcionar ao leitor uma
auto-ajuda, como são atualmente, os sucessos de vendagem do Paulo Coelho e do
Lair Ribeiro.
Infelizmente, hoje em dia, o autor já não
pode mais sonhar e contar os seus sonhos para os leitores, como fizeram;
Monteiro Lobato, Machado de Assis, Shaskpare, Cervantes, Pirandello e tantos
outros que criaram suas personagens e fantasias que proporcionavam uma
verdadeira "viagem" na imaginação dos leitores.
Às vezes, apesar do pouco tempo que me
sobra, penso em realmente escrever um livro, e talvez também algumas crônicas,
ou mesmo poesias naqueles momentos de inspiração; no entanto, subitamente, me
deparo com esta questão: quem vai ler? Serei eu mesmo? O meu vizinho? Ou o meu
amigo mais antigo?
As pessoas já não sonham mais, são muito
pragmáticas, não têm tempo para leitura, preferem as notícias rápidas dos
jornais e as cenas de violência na TV Concluo então, que os escritores
sonhadores, românticos, poetas, estão fadados ao desaparecimento por completo e
perpetuarão os escritores da mídia, do jornalismo sensacionalista e sem dúvida
a antítese do livro ¾ a
televisão.
Acontece que escrever está se tornando para
mim tão fundamental como o ar que respiro. Já não consigo mais me conter e tudo
que sinto e vejo à minha volta, me faz pensar que daria uma boa estória, um
conto, uma crônica ou uma nota de registro para ser lida mais tarde. Será que
isto é uma doença? O que diria Machado de Assis?
Vivo atualmente um drama terrível. Tenho
vontade de deixar o cargo que ocupo no Banco Italiano onde trabalho com afinco,
o qual me proporciona privilégios da classe média, e passar a escrever o dia
inteiro sobre tudo. Sobre a minha vida, sobre a viagem que fiz ao Pantanal e sobre
os meus sonhos sonhados de olhos abertos.
Confesso que, sobre a minha vida já estou
escrevendo, porém estou indo muito devagar por causa da vida sofrida que tive,
principalmente no período da adolescência. De modo que, na maioria das vezes,
torna-se muito doloroso para eu reviver mentalmente os sofrimentos, as
angústias e humilhações sofridas.
Bem, sobre a viagem ao Pantanal, já escrevi
recentemente e ousei em enviar o texto para o editor da revista Aruanã só que,
até agora, ele não se manifestou e pelo jeito acho que não gostou muito. Agora,
escrever sobre os sonhos é que eu me
pergunto se valerá a pena ou não.
Acho que em breve terei que me decidir o que
fazer....
***
O Mar E A Vida, Como Fica?
C
erto dia, lembrei-me da primeira vez que
avistei o mar, e recordei-me de como fiquei maravilhado com tamanha beleza do
nosso Criador. Interessante também, foi notar pela primeira vez de como os
banhistas tomavam o chamado banho de mar. Alguns tinham muita facilidade de
enfrentar as ondas, e o faziam com tanta naturalidade que até pareciam fazer
parte dele. Outros, ainda muito receosos, não se atreviam a enfrentá-lo, ou
porque não sabiam como fazê-lo, ou simplesmente o temiam. Os primeiros,
saltavam as ondas como se fossem pequenos obstáculos, já os demais sentindo-se
inseguros, arriscavam-se eventualmente. Na maioria das vezes, estes últimos, os
inseguros, eram surpreendidos por alguma onda mais forte e caíam como se fossem
crianças aprendendo como andar.
Achei tudo aquilo muito engraçado
e divertido. Comecei então a pensar, e logo me veio a idéia de que há grande
semelhança entre o mar e a vida das pessoas. Vejamos se tenho ou não razão:
As ondas para todos nós, são como
os anos de nossas vidas. Para alguns, são mais fáceis de superá-los isto é;
como fazemos no mar, ora de frente, ora de lado, ora saltando e às vezes tendo
que mergulhar fundo para poder superá-los.
Para os demais, ainda não muito
preparados, as ondas são tarefas árduas e difíceis de modo que, algumas até são
possíveis de serem superadas, outras ainda não. Para estes, os anos às vezes
são difíceis e como fazem no mar, ao
caírem têm que levantar e tentar novamente.
Eis que, a natureza assim como a
vida, proporciona tanto àqueles melhores preparados quanto àqueles ainda em
treinamento, as mesmas chances e igualdade de condições.
Para os primeiros, cada vez mais
buscarem maiores e maiores ondas e para os demais tentarem quantas vezes for
necessário, porque elas, assim como a vida, estarão sempre lá a espera do
aprendiz, do apto ou de um novo banhista para iniciar o treinamento. O mar e a
vida, como fica?
***
Um Escritor À Procura De Um Compositor
J
á faz algum tempo que não escrevo
alguma coisa. Desde quando fomos viajar para a Disney, no final de outubro
passado, que não escrevo nada. Acho que ando meio preguiçoso. Quando voltamos
de viagem, pensei comigo: agora, vou ter muito mais estórias pra contar, afinal
tinha realizado um sonho que quase toda a população do planeta, principalmente
as crianças, gostariam de vivê-lo ou de revivê-lo.
O engraçado é
que nada disto aconteceu, acho que; mesmo
passados quase dois meses, estou ainda degustando as fantasias e os
sonhos vividos por lá. De qualquer maneira, vamos para um pequeno ensaio.
Todos sabem
que, recentemente, o Brasil perdeu um grande brasileiro até no nome. O grande
maestro, compositor, carioca da gema, amante da natureza, criador do movimento
da Bossa Nova junto com seu parceiro do Vinicius que também já se foi. Ninguém
precisa se esforçar para saber que estou falando do Tom Jobim. Aquele sujeito
de modos simples e de conversa mole que de vez em quando aparecia na televisão
fumando um charuto Cubano ao lado de um piano Alemão, e que o pessoal lá de
Ipanema chamava-o simplesmente de Tom.
Todos os
brasileiros choraram e lamentaram a perda do Tom, o artista que todo mundo via
e ouvia. Entretanto, eu tinha razões a mais para chorar a perda, não só do
artista, como a do sujeito Tom. Para mim, ele era uma pessoa a qual eu desejava
imensamente conhecer, assim como fora o Vinícius de Moraes, com quem também não
tive a menor chance. Pessoas como eles são diamantes raros, difíceis de
encontrar, que só os afortunados tiveram o privilégio.
Nesta vida a
gente encontra e conhece tanta gente que não dá nem para contar. Mas, são muito
poucos aqueles que nos acrescentam alguma coisa, que têm algo diferente para
nos dizer.
Se eu
encontrasse o Tom, assim como às vezes a gente encontra qualquer um na rua,
teria convidado-o para tomar um chope comigo num bar do Bexiga e então teria mostrado
a ele a Menina da Paulista - o texto que criei numa madrugada qualquer em
homenagem às moças que trabalham na Avenida Paulista - e algo me diz, que ele
teria transformado o simples texto numa composição musical tão bela quanto a
Garota de Ipanema feita em parceria com o Vinicius.
No entanto,
isto não aconteceu, e perdi a minha chance. Mas, quem sabe, não tenha sido a
última e qualquer dia destes me encontro com Dorival Caimy ou talvez com Chico
Buarque ou Caetano ou ainda o Belchior. Quem sabe?
É meu caro
Tom, muito embora não tivesse conhecido você, eu sei que onde você estiver e
certamente estará junto com teu companheiro Vinicius, saberá do que estou
falando, quando digo:
LEMBRANÇAS
As rosas vão murchar
Quando o orvalho secar
Na manhã do dia seguinte
Quando a primavera terminar
Restarão as lembranças...
Do sol ao raiar no infinito
De um amor quase esquecido
Perdido do meu sentido.
Quando o orvalho secar
Na manhã do dia seguinte
Restarão as lembranças...
Da mulher amada, clamada, cantada
No verso, na prosa, na poesia
feita na madrugada
Do cântico do sabiá, do aquaquá
Do luar e do mar de Paquetá.
Na manhã do dia seguinte
Quando a primavera terminar
Restarão as lembranças...
De uma vida vivida
Intensa, densa, despida
E, por fim, exaurida.
Quando a primavera terminar...
***
Indagações
C
erto dia, no elevador do edifício onde moro, me deparei com dois
garotos muito simpáticos que se não fosse pela altura de onde suas cabeças
falavam, nada teria me chamado tanta atenção.
Olhando mais atentamente para um deles,
arrisquei a dar um palpite:
¾ Você deve ter 1,80? Ele, na ponta da língua, retrucou
entre graves e agudos.
¾ Um e noventa e dois.
¾ Não me contive. Um metro e noventa e dois! Puxa vida!
Como você é alto!
¾ Virei-me para o outro e indaguei: você deve ter.... Recebi como resposta seca e
forte como um trovão.
¾ Um e noventa.
Com cara de espanto, acrescentei um
comentário...
¾ Tenho um filho de 14 anos, também alto como vocês, ele
tem um metro e oitenta e cinco e já usa sapato 42. E vocês? Também têm 14 anos
e usam 42? Retrucaram em coro:
¾ Quinze.
Ambos, balançando suas cabeças lá de cima
com sinal afirmativo de que também calçavam quarenta e dois, foram deixando o
elevador com um sorriso sem graça estampado naqueles rostos de crianças
incrustados num corpo de homem.
No dia anterior ao acontecido no elevador,
em tom de brincadeira, elogiei o bigode iniciante e prematuro do meu filho de
14 anos e ele me respondeu seriamente e mais desafinado do que viola de corda
frouxa.
¾ É pai... Você precisa me ensinar como é que se faz a
barba.
Meio sem jeito, respondi tentando me
desvencilhar da tarefa.
¾ Ah, menino. Qualquer dia destes eu te ensino.
Estes dois fatos corriqueiros, para você
leitor, não devem ter a menor importância. No entanto, me fizeram refletir um
pouco mais sobre um fenômeno bastante notável que vem acontecendo nos últimos
anos com a juventude brasileira, ou seja; nossos jovens em média estão mais
altos do que os jovens de antigamente. Isto é uma constatação que pode ser
comprovada nas ruas das nossas cidades, onde vemos a todo instante adolescentes
altos, muito altos e mocinhas precoces.
Me pergunto: por que será que isto vem
acontecendo? Maravilha da genética transmitida de pais para filhos? Melhor
nutrição? Será que estamos alimentando melhor nossos filhos do que nossos pais
faziam conosco?
Não encontrei ainda uma resposta, mas
arrisco alguns palpites: maravilhas à parte ¾
geração saúde de garotões altos e mocinhas precoces, tudo indica que em breve
nossos filhos, normalmente terão altura do Magic Jonhson e modificarão as
estatísticas sobre a população brasileira. Portanto, teremos também mais
chances nas olimpíadas em todas modalidades de jogos que requer altura elevada,
mas há um outro lado da questão que precisa ser abordado.
Estes jovens com crescimento mais acelerado
que nosso querido Ayrton Senna em Interlagos, sofrem transformações genéticas
tão rápidas em seus corpos que nem eles mesmos se dão conta do acontecido e pior, na maioria das vezes não
sabem lidar com elas tão cedo.
Preocupante é a quantidade crescente de
jovens adolescentes ainda meninas e grávidas ¾
quando deveriam estar brincando de bonecas. Como também é preocupante a
iniciação precoce ao hábito da bebida alcoólica que como nós adultos sabemos torna-se
facilmente em vício. Certo dia, ouvi de uma menina de 16 anos ¾ balconista de uma loja, que confessava precisar
parar de beber, pois todos os dias ela bebia alguma bebida alcoólica.
É verdade que, nos dias de hoje, nossos
jovens recebem uma quantidade enorme de informações que os levam a compreender,
entender e lidar com assuntos da vida adulta muito precocemente e então, talvez
isto venha contribuindo para a tal aceleração genética. Mas será só isso a
causa principal?
Indago ainda: até que ponto o tipo de alimentação que damos
aos nossos filhos também não influi? Será que no iogurte de cada dia e no
mamãozinho Papaia, preparado desde os primeiros meses de vida com carinho pela
mamãe, têm algum tipo de hormônio que acelera o crescimento? E os remédios,
tantos são os que damos às crianças até que se tornem resistentes às gripes e
resfriados constantes, será que alguns aceleram o crescimento?
Não quero fazer acusações levianas. Quero
apenas perguntar: será que existe alguma autoridade sanitária ou médica
cuidando, fiscalizando para que não haja excesso de hormônios nos alimentos que
ingerimos todos os dias? Todos os brasileiros se sentem seguros quanto à esta
questão? Alguém pode responder às minhas dúvidas, as quais também podem ser as
de milhares de brasileiros?
***
Dinheiro, Pra
Que Ti Quero?
A
caminho do trabalho, certo dia,
tomei um ônibus daqueles comuns que estamos acostumados a ver por toda a cidade
- cheios de gente, barulhentos, desconfortáveis, fazendo você, amigo leitor (e
verás mais adiante que não estou mentido) sentir-se como um boi. Sim, um boi
mesmo e ainda a caminho do matadouro, porque nem mesmo os bois são tão
chacoalhados, arremessados por todos os lados, esfregados e amassados como nós
os passageiros de ônibus, pagadores de impostos, digníssimos cidadãos
cosmopolitas da capital do Estado mais próspero do país.
Os bois, quando são levados ao matadouro,
não sofrem como nós - pagadores de impostos, ultimamente mais de promessas,
porque se assim se sucedesse, coitados dos seus proprietários criadores, o
prejuízo seria certo, pois os bois ao chegarem ao matadouro estariam assim como
nós, magros, abatidos, com olheiras enormes, cansados e ainda meio adormecidos,
porque diariamente quando chegamos em casa depois de em média três horas de
viagem de ônibus, temos a obrigação de acordar cedo no dia seguinte porque o
patrão não perdoa atrasos, e de novo como no dia anterior, enfrentar a mesma
fila no ponto de ônibus, o mesmo ônibus, a mesma viagem, o mesmo trânsito a
mesma mesmice de sempre.
Voltando ao que eu ia dizendo no parágrafo
anterior antes da estória dos bois, e deixando esta estória de lado, porque
isto aqui não é estória pra boi dormir, mas sim uma crônica simples sobre o
cotidiano da cidade, antes de me aproximar do cobrador - já dentro do ônibus,
contei as minhas moedas e me dei conta de que não as tinha em quantidade
suficiente para pagar a passagem - faltavam ainda quinze, quinze centavos.
Míseros quinze centavos, o suficiente para comprar uma bala, só uma, porque
duas não dá. Abri a carteira na esperança de encontrar um trocado qualquer, mas
não havia nenhum miúdo. Aliás, só tinha um graúdo, uma nota de dez reais.
Tirei-a da carteira e ofereci-a ao cobrador que seriamente perguntou-me num tom
inquisidor.
¾ O sinhô num tem mais trocado?
A pergunta deixou-me embaraçado, embora já
estivesse esperando por ela. Respondi que não os tinha. Tirei meu porta-níqueis
do bolso e passei a contar as moedas na frente do cobrador com a esperança de
que na contagem anterior houvesse me enganado, mas infelizmente estava correto
o valor - exatos cinqüenta centavos. O que fazer? Perguntei ao cobrador - na
esperança de ouvir dele um gentil pode deixar... tudo bem, se ele aceitaria
apenas os cinqüenta centavos para pagamento da passagem. A resposta foi rápida
e fulminante e, porque não, surpreendente. Afinal, faltavam apenas quinze
centavos.
¾ Não sinhô. Quinze centavos pra mim é muito. Num dá.
Sem saber bem ao certo o que fazer, e já
percebendo que eu era o centro das atenções mesmo porque a fila junto à catraca
não andava, me senti um perfeito cidadão metido a besta, sobretudo desavisado,
distraído e desacostumado a andar de ônibus pela cidade, no que concordei
apenas com a penúltima patética hipótese. Dado ao impasse, restou-me apenas um
último pedido ao cobrador:
¾ Por favor, o senhor pode pedir para o ônibus parar para
eu descer?
E assim aconteceu. Desci do ônibus pela
porta da frente como fazem os senhores maiores de 65 anos de idade, mas nem
sempre tão cabisbaixo quanto eu, sentido sei lá o quê? Raiva, estupidez,
humilhação, qualquer coisa do gênero.
Passei a caminhar e a pensar com os meus
botões sobre o que havia acontecido e notei que de vez em quando, os ônibus que
passavam bem próximos a mim, por causa da subida íngreme da Avenida Rebouças,
eram forçados à redução de marcha, soltando por conseguinte, quilos e mais
quilos daquela fumaça preta chamada elegantemente pelos jornalistas de monóxido
de carbono ou como podemos dizer... fumaça concentrada de fuligem oriunda de
motores a óleo diesel, principal responsável pela poluição nas grandes cidades,
como também pela prosperidade das farmácias - que o digam os pais de crianças,
e por que não também pela prosperidade dos médicos especialistas do aparelho
respiratório.
E vejam só, ainda querem proibir o hábito de
fumar em lugares públicos, pelo que sou absolutamente a favor, pois trata-se
primeiramente de educação necessária à convivência em sociedade, mas que na
minha opinião não precisaria vir em forma de lei, mas sim do berço. Será que
nós, os brasileiros, só vamos fazer as coisas ou deixar de fazer alguma coisa,
se estiver previsto em lei? A continuarem estas proibições, logo, logo, aos
poucos como estamos indo, vamos conseguir proibir os carros de soltarem fumaça
- pelo que já conseguimos em parte mas através de lei, e também os ônibus, os
caminhões e tudo que contamine o ar até mesmo os “pums”. Haja lei pra tudo
isso! Pergunto-me, não seria melhor começar a fazer as coisas certas da
primeira vez, para que depois não seja preciso criar uma lei que regulamente o
assunto? Assim, os carros só seriam fabricados se não poluíssem o ambiente e os
cigarros só seriam fumados se os acompanhantes do fumante mal educado
permitissem e assim por diante, ora bolas. Deixemos esta questão para quem entende
do assunto, que não é o meu caso, se continuar, corro o risco de ser linchado
na próxima esquina.
Continuei na minha caminhada matinal, afinal
estava precisando mesmo, pois ando meio fora de forma e ainda por cima,
economizei cinqüentas pratas. Não é ótimo? Não dá para pagar um café, mas já é
alguma coisa. Nos tempos de hoje, pelo visto, quem tem quinze centavos no bolso
está melhor do que quem não tem nada e eu naquela ocasião tinha cinqüenta. Da
próxima vez vou pensar melhor se devo pegar um ônibus ou se devo ir a pé,
sessenta e cinco centavos, é muito dinheiro para ser desperdiçado à toa. Num
país de sessenta milhões de miseráveis quem tem um tostão é milionário. Ih!
Será que disse alguma bobagem? Acho que hoje a sarna da escrita para temas
polêmicos está atiçada demais em mim. Vou-me deitar antes que amanheça. Boas
noites.
***
Mariana
M
ariana era destas mulheres que havia vencido na vida com seus próprios
esforços. Seu dinamismo e objetividade eram notáveis. Chegou ao curso superior
quando já havia conhecido Carlos e ambos, terminaram seus respectivos cursos no
mesmo ano. Ela se formou em jornalismo, seu sonho de menina. Ele queria ser
engenheiro, mas teve que se contentar com um curso de Administração de
Empresas, levado a trancos e barrancos, pois a dedicação ao emprego lhe roubava
o tempo e o entusiasmo com o curso. Direito teria lhe sido muito mais útil.
Antes de terminarem a faculdade, resolveram se casar, sob protestos do pai de
Mariana, que vislumbrava um futuro para filha, melhor do que prometia Carlos,
um franzino rapaz de pouca vocação para o sucesso no mundo dos negócios, no
qual o pai de Mariana já estava há muito tempo e com relativo êxito, afinal
criar e educar cinco filhos, sendo todos com láurea, não é tarefa fácil nos
dias de hoje.
Carlos não era o marido idealizado pelo pai de Mariana. É verdade que
tratava-se de um rapaz esforçado, aos estudos nem tanto, muito dedicado ao
trabalho mas não ia além disto. Já havia tentado vários pequenos negócios.
Fracassara-se em todos, o jeito mesmo foi arrumar um emprego modesto num
cartório e lá seguir carreira até tornar-se tabelião.
Mariana era a terceira dos cinco filhos do Sr. Pedro com Dona Elza.
Desde pequena, Mariana demonstrava independência e seu ímpeto para fazer as
coisas sozinha. Aos quinze anos, resolveu por conta própria ir trabalhar para
não mais depender do auxílio financeiro do pai, o qual insistia em tentar
dissuadi-la da decisão, mas Mariana não costumava dar ouvidos a ninguém quando
alguma coisa lhe interessava. Parecia, segundo a mãe, que sempre gostava de
contrariar os gostos do pai.
Mariana amava Carlos. As brigas, nos tempos da faculdade, eram
acirradas. Passavam dias sem se conversarem, mas entre um e outro cachorro
quente, nos intervalos das aulas, acabavam se falando e tudo terminava bem na
mesma semana.
Carlos não era de falar muito. De amor então, quase que nada. Às vezes,
demonstrava carinho, afeição, sobretudo atenção para com Mariana. Trazia no seu
íntimo a paciência de Jó, principalmente quando sentava ao lado de Mariana para
escutá-la falar dos problemas que a afligiam no novo emprego na redação de um
pequeno jornal, conquistado na época, a duras penas, depois de uma maratona de
entrevistas e testes.
O dia do casamento já havia ficado para trás há algum tempo, filhos
porém, embora estivessem nos planos, Mariana achava que era cedo demais,
todavia, Carlos era de opinião de que já estava na hora, afinal ele já estava
por completar trinta anos e ela apesar de um pouco mais jovem, precisava ser
mãe, seguindo os costumes familiares.
A rotina do dia-a-dia tomava conta de suas vidas. Mariana, um pouco
vaidosa e ambiciosa, freqüentava academia segundas e quartas, terças e quintas,
cursava inglês. Carlos não deixava de jogar seu futebol de salão com seus
amigos do bairro onde nasceu e foi criado, nem mesmo que chovesse ou fizesse
frio. No Ginásio, onde Carlos jogava, havia quadras cobertas e campeonatos em
disputa o ano inteiro. Após o jogo nunca faltava a costumeira roda de amigos
regada à cerveja, que às vezes avançava na noite horas à fio.
A primavera se aproximava e com ela os ventos do mês de agosto
prenunciavam mudanças nas vidas de Carlos e Mariana. Era certo que não
soubessem do que estava por vir contudo, tanto Carlos quanto Mariana,
pressentiam em suas almas algum sinal enviado pela perspicácia da intuição e
isto os deixava ora deprimidos, ora pensativos, sobre suas vidas.
Numa segunda-feira, Mariana chegou pontualmente às 10:00 horas ao
escritório de um empresário de sucesso, com quem havia marcado uma entrevista
há dias. A entrevista seria sua primeira matéria de peso para um grande jornal
que havia recentemente contratado-a para um serviço free lance e deveria conter
fatos relacionados com o mercado de automóveis, sobretudo uma opinião do tal
empresário sobre a invasão dos carros estrangeiros no mercado nacional. O
empresário, dono de algumas concessionárias, se chamava por ironia do destino,
Carlos - Carlos Sampaio. Do alto de seus quarenta e pouco anos, Carlos, um
homem de negócios, astuto, olhar de águia, diplomata por excelência, esbanjava
charme por onde passava. Estava no seu terceiro casamento, ou melhor, pronto
para o quarto, quero dizer o quarto casamento, pois o terceiro havia também se
acabado repentinamente, quase que exaurido como éter.
Mariana, após ser anunciada pela secretária, caminhou a passos firmes
em direção à mesa de Carlos, que ainda estava atendendo uma última ligação
telefônica, antes de iniciar a entrevista. A cadeira de Carlos, girou 180 graus
e colocou-o frente a frente com Mariana que já estava, em pé, de olhar fixo
sobre ele. Aqueles olhos amendoados e negros de Mariana, que combinavam com os
negros cabelos de Carlos, cravaram-lhe na alma um tiro certeiro de uma mistura
incerta de paixão e sensualidade, como Carlos nunca havia sentido antes.
Sem se deixar abater, friamente, com voz pausada, Carlos, estendeu a
mão para Mariana que, com o tocar das mãos - estremeceu-se de modo
imperceptível. Sorrindo levemente, convidou-a a sentar-se no confortável sofá.
E assim, deu-se início à entrevista.
Mariana logo se deu conta de que estava diante de um homem hábil com as
palavras, que articulava de maneira inteligente cada frase, cada idéia, que lhe
vinha à mente. Por diversas vezes, apercebeu-se de que deixava se levar,
envolvendo-se no turbilhão de idéias que brotavam de modo fértil do cérebro
treinado de Carlos, e desta maneira não conseguia seus objetivos, que eram o de
captar e registrar suas idéias e opiniões.
Com o passar dos minutos, foram ambos, descontraindo-se e o bom humor
passou a ser a tônica da entrevista, que aos poucos transformava-se num
bate-papo entre sorrisos e elogios de ambas as partes, de modo que, a duração
da entrevista, antes prevista para uma hora, uma hora e meia, já estava com
duas horas ameaçando ir mais além, até que Carlos num ímpeto muito próprio de
sua personalidade, lançou um convite à Mariana.
Mariana hesitou, argumentou,
porém a sua curiosidade em saber mais sobre aquela pessoa que estava diante
dela lhe pedindo algo como criança que pede doce, falou mais alto, e acabou
aceitando o convite para um almoço a dois, num restaurante especializado em
frutos do mar, preferência comum descoberta durante a entrevista que já estava
encerrada.
Não é preciso dizer leitor, que mais uma vez, Carlos deixava se levar
pelo seu instinto aventureiro em busca de novas descobertas do coração.
Mariana, por sua vez, parecia enfeitiçada pelo charme daquele homem que exalava
um agradável perfume e falava com segurança inspirando confiança a quem quer
que estivesse ao seu lado.
A despedida veio com promessas de novo encontro e fez com que Mariana
se desse conta de que tudo que acabava de acontecer entre ela e Carlos Sampaio,
lhe parecesse como se houvesse terminado um sonho e de onde tivesse saído com a
quebra repentina de um encanto. Mariana respirou fundo e perguntou a si mesma:
afinal, o que estava acontecendo com ela? Porque deixava se levar pelos
encantos daquele homem tão diferente do seu marido Carlos. O que havia nele de
tão especial que fazia sua cabeça rodar e seu raciocínio escorregar por
caminhos que não chegavam a lugar nenhum. Seria um feitiço? Seria uma fraqueza
da sua personalidade? Não encontrando respostas de imediato, preferiu esquecer
de tudo que havia acontecido naquele dia.
Dizem, amigo leitor, que o cérebro, assim como o estômago, não aceita
coisas mal resolvidas, principalmente as do coração, de modo que tudo que vai
para dentro dele sem que esteja bem digerido, volta à tona mais cedo ou mais
tarde com toda força. Foi assim que se sucedeu com nossa amiga Mariana, que de
tão aflita com aqueles acontecimentos, tivera logo mais à noite, uma noite de
cão, ou seja, não conseguiu pregar os olhos durante quase a noite toda
revivendo mentalmente todos os acontecimentos do dia.
Carlos, naquela noite, nem sequer se deu conta da insônia acometida por
Mariana. Tivera um dia cheio de problemas no cartório e havia falado com ela
apenas uma vez durante todo o dia e tudo parecia bem.
Mariana chegou, no dia seguinte, mais tarde ao trabalho com olheiras
profundas que até os colegas passaram a indagar se estava tudo bem, se havia
acontecido alguma coisa, mas Mariana justificava pela noite mal dormida e dava
logo um ponto final na conversa. O dia de trabalha mal havia começado. O
telefone toca. Mariana estremece com um pressentimento, como se algo lhe
dissesse claramente que se tratava de Carlos Sampaio, preferiu não atender.
Estava certa a sua intuição. Mariana, então, começa a ouvir o recado que Carlos
deixa gravado na secretária eletrônica e não consegue dissimular a inquietação
que abala e toma conta do seu espírito naquele momento.
Há um conflito estabelecido na alma de Mariana. Disto ela sabe e
prefere não fugir, quer enfrentá-lo de frente como tudo, até então, em sua
vida. Sai do escritório em busca de um lugar para pensar, sabe que está diante
de um problema e precisa resolvê-lo. Para isto, precisa refletir, encontrar
respostas que só ela sabe onde estão. Volta mais tarde para o escritório e
encontra mais um recado de Carlos Sampaio, desta feita resolve responder ao
chamado. Conversam sobre amenidades, sobre a entrevista, mas a conversa vai ao
ponto principal, que é um novo encontro. Mariana aceita o convite, pois está
decidida por enfrentar o desafio.
Os dias passam e os encontros entre Mariana e Carlos Sampaio tornam-se
mais freqüentes, até que o adultério de Mariana chega às vias de fato e com ele
uma paixão avassaladora e envolvente passa a dominar por completo seu coração.
A constatação deste fato leva a outro ou seja, Mariana não ama mais seu marido
Carlos e isto a faz duvidar se algum dia o amou de verdade, pois agora, diante
do amor envolvente de Carlos Sampaio, tudo leva a crer que talvez nunca amou
por completo o seu marido e que mantinha por ele uma combinação de amizade com
afeição carinhosa projetada na figura masculina do pai, explicável apenas por
psicólogos experimentados.
Uma decisão precisa ser tomada, não há mais o que esconder, algumas
pessoas já notam o que se sucede entre ela e Carlos Sampaio, que cada vez mais
se faz presente em sua vida. Mariana não quer saber de falsidades entre ela e
Carlos, seu marido. Seu caráter não lhe permite manter um caso de amor às
escondidas e resolve contar todo para ele.
É noite, Carlos chega em casa, estranha a presença de Mariana que
deveria estar na aula de inglês. Pressente que algo estranho está no ar, sabe
que seu relacionamento conjugal, ultimamente, anda muito frio e teme pelo que
possa vir acontecer.
Mariana inicia a conversa com ares de preocupação e arremata logo uma
pergunta à queima-roupa, que Carlos já esperava.
— Onde você esteve ontem? Carlos sentiu um calafrio e rapidamente
pensou antes de responder.
— Saí com alguns amigos do cartório para comer uma pizza. Por que?
Antes que Mariana respondesse, imaginou o que havia acontecido e logo concluiu
que ela de alguma forma, sabia que ele não havia saído com os amigos e que
aquilo era apenas um álibi criado de última hora.
— Por nada, achei que você chegou um pouco tarde. Sabe Carlos, acho que
precisamos conversar sobre nós...
Carlos, receou que Mariana o desmascarasse, pois há muito tempo ele
vinha mentindo para ela e decidiu abrir o jogo, pois já não suportava mais
aquela situação. Mariana também andava diferente ultimamente, não era mais a
mesma pessoa, sequer dava-lhe atenção, sempre estava muito atarefada com as
matérias do jornal. Carlos estava cansado de tudo aquilo, queria dar um basta e
foi logo dizendo...
— Mariana, preciso lhe confessar uma coisa.
Mariana, ficou perplexa ao ouvir as palavras que saíram da boca de
Carlos nos minutos que sucederam-se.
— Eu tenho outra pessoa e quero o divórcio. O nosso casamento acabou,
estamos nos enganando, você mudou, eu mudei, etc.
O mundo girou sob os pés de Mariana. Estarrecida, sem saber o que
dizer, pois estava na iminência de confessar o seu adultério a Carlos. Contudo,
sentiu uma revolta tão grande dentro de si com tal ingratidão, que foi incapaz
de levar adiante seu intento. Perguntou a si mesma, como aquilo podia estar
acontecendo entre ela e Carlos. O Carlos, aquele meigo e sincero rapaz, que
parecia incapaz de tal coisa, que sempre demonstrava sua fidelidade até de um
modo quase ingênuo havia, sorrateiramente às escondidas, pelas suas costas,
trocada-a por outra. Custava-lhe acreditar em tal ousadia, mas era a verdade, a
dura verdade que doía profundamente.
Mariana estava diante de um dilema. Não sabia se também se confessava
com Carlos, contando-lhe seu único e acidental adultério ou se vingava-se dele,
escondendo-lhe o fato para faze-lo pensar que lhe devia uma ingratidão. Optou
pela última alternativa e considerou-se vingada. Carlos, jamais soube da
existência de Carlos Sampaio. O divórcio entre Carlos e Mariana, não tardou a
acontecer.
Ah! Amigo leitor, o destino, às vezes, nos prega peças e nós sabemos
quanto ele nos surpreende com seus caprichos. O romance de Mariana e Carlos
Sampaio parecia um verdadeiro conto de fadas. Porém, numa tarde de sexta-feira,
Mariana, estava dirigindo seu automóvel entre um emaranhado de carros em um dos
comuns e quilométricos congestionamentos da Capital, quando viu sair de uma
garagem em marcha a ré, um automóvel, o qual lhe parecia muito familiar. Notou,
subitamente, que ao volante estava Carlos Sampaio e que de dentro da garagem
saía acompanhando o veículo, uma bonita e sorridente mulher com ares de
felicidade exalando pelos poros. Tão feliz quanto ela, Mariana, que vivia
intensamente um grande romance. Carlos Sampaio alinhou o veículo ao meio fio, a
mulher veio até a sua porta e beijando-o longamente se despediu, fazendo-lhe
carinhosos afagos em sua cabeleira negra. Naquele fatídico encontro que se
desenrolava sob os olhos de Mariana, todos os seus sonhos com Carlos Sampaio,
se desmoronaram como pedras que caem do alto do Himalaia.
***
Chuvas de Verão
H
avia dias em que não chovia.
Naquele dia, choveu. Foi uma chuva rápida,
como são as chuvas de verão, densa, encorpada, de pingos grossos e
incrivelmente cristalinos. Naquela tarde em que choveu, lembrei-me por um
instante da minha infância já distante, época em que nunca perdia sequer uma
chance de brincar quando chovia, ainda que sorrateiramente, com a água da chuva
que caía, molhava minha roupa, pelo meu corpo escorria e sobre a terra
poeirenta uma lama vermelha rapidamente fazia.
Ah! Como era gostoso sentir aquela água me
tocando quase me abraçando, me envolvendo, aconchegante, com suas gotas mornas,
as quais deixava que entrassem na minha boca sedenta, às vezes lambuzada e
melada de doce de coco ou de chocolate. Ah! Como eram bons aqueles dias.
Havia dias em que o sol forte da tarde
deixava todo mundo com preguiça gostosa que dava vontade de deitar sob a sombra
de uma árvore e só o céu olhar. Nestes dias, eu procurava sempre meu cantinho
no quintal de casa, que só eu mesmo conhecia e de lá; a rua, o quintal do
vizinho, as nuvens que vinham e que iam, tudo, tudo eu avistava com meus olhos
aguçados de menino.
Enquanto a chuva não vinha, eu comia
frutinhas vermelhinhas, que de uma pequena árvore caíam sobre mim e faziam do
chão um tapete vermelho. Tinham gosto apertado, mordaz, que não me esqueço
jamais.
Sobre a enxurrada que se formava quando
chovia, colocava para deslizar um barco feito de papel de caderno escolar e
então, apenas com isto feliz me sentia. Corria ladeiras, seguia corredeiras,
admirava com meus olhos curiosos os pequenos remansos que se formavam ao lado
das sarjetas, mas no final assistia tristemente meu pequeno e desajeitado barco
se desmanchar sob as marolas barrentas, como as nuvens que se dispersam de
repente, assim como os pensamentos da gente que anuviam e desanuviam nossas
mentes. Ele, o barquinho, se ia rua abaixo até desaparecer. Eu, o garoto,
voltava chorando, mas outro barco - feito por alguém, estava à minha espera.
Ah! Que pura felicidade de uma criança e seu brinquedo simples e frágil, feito
de papel.
A chuva passava, o tempo mudava, as horas
passavam, os dias também passavam e a minha infância lá se ia rapidamente e nem
sequer percebia que um adulto em mim, aos poucos nascia.
Alguma coisa sempre se modificava quando o
verão chegava. O barco já não era mais o mesmo - eu pouco me importava com ele,
pois já havia outros brinquedos, nem mesmo a chuva era mais a mesma. Eu mesmo,
já não era mais o mesmo. Meus pés já faziam poças maiores do que anteriormente
das quais, dava-se para espirrar água barrenta bem longe. Meninice e
traquinagens que só quem um dia fez, sabe como é.
Quando me dei conta, naquele dia em que
choveu uma chuva de verão, todas estas lembranças passaram rapidamente pela
minha mente. Senti vontade de tirar quase toda a roupa, para no meio da rua
saltar como criança e deixar que aquela chuva de verão molhasse meu corpo,
minhas roupas e me fizesse criança novamente como antigamente. Contudo, não
havia terra na rua, tão pouco havia crianças, somente as do meu pensamento -
devaneios matutinos, pensei.
Tive o impulso, mas não tive a coragem de me
lançar sob a chuva que caía forte e fazia questão de me molhar até dentro do
automóvel onde eu estava sentado, como se quisesse a todo custo que fosse para
junto dela. Não resisti e deixei o vidro do carro semi-aberto para que ela, a
chuva, ainda que pouco e bem pouco, pudesse meus braços e minha face molhar
suavemente.
Satisfiz meu desejo, meu pequeno desejo,
desejo de adulto ainda criança que não tinha com quem brincar, pois não havia
crianças à minha volta.
Voltei-me para meus pensamentos com os quais,
costumo navegar por uma imensidão sem fim de idéias e imaginações, e é através
deles que viajo entre o passado, o presente e o futuro num segundo. Eis que, de
repente, vejo ao meu lado, bem pertinho de mim um garoto de olhos amendoados e
curiosos, cílios e cabelos fartos, sobrancelhas bem definidas, mãos delicadas
com acentuada e peculiar envergadura no dedinho indicador quando de mãos
abertas e no rosto delgado e delicado um sorriso maroto, moderado, quase que
imperceptível, porém constante e marcante que dava gosto de ver. Aparentava não
ter mais que 8 ou 9 anos de idade e como todo garoto desta idade, usava seu
boné preferido e mascava um chiclete de bola. Sem que eu tivesse tempo de
disparar a primeira pergunta, ele como quem adivinhasse minhas intenções, foi
logo dizendo a dele.
¾ Por que você tá assim? Com cara de espanto.
Como se não soubesse do que ele falava,
retruquei com ares de sabedoria.
¾ Assim como menino? O que você está querendo me dizer?
Quase que ao mesmo tempo em que eu terminava
a pergunta, ele já ia logo emendando.
¾ Assim, ué... com esta cara triste, jururu, com cara de
quem comeu e não gostou!
Percebi que tratava-se de um garoto sensível
e muito esperto e a mim mesmo perguntei: como será que ele sabe que andei
pensando na minha infância e agora me sinto um pouco triste deste jeito?
Tentando desconversar fui dizendo o que me veio à cabeça.
¾ Garoto. Não estou triste não. Sabe o que que é...
estava aqui olhando esta chuva bonita que está caindo e me lembrei dos tempos
em que eu era criança... assim como você. Lembrei-me de que gostava de brincar
na chuva com barquinhos e... novamente, o menino sabido atravessou a conversa
não me deixando terminar, dizendo com objetividade e personalidade.
¾ Mas porquê ficar
triste assim? Só porque você não brinca mais na chuva? Se você quiser posso
brincar com você. Tá a fim?
Surpreso com o convite, balbuciei.¾ O quê? Brincar na chuva? Não, isto não. Já foi a minha
época. Não posso...
¾ Não pode? Só porque cresceu, usa calças compridas e tem
que manter a pose de gente grande, não pode brincar? E daí? Não tem nada a ver.
Vem, vamos nessa. Vamos ver quem chega primeiro no portão? Quem perder vai ser
o cavalinho. Vou contar até treis enh! Foi saindo do carro sem se importar com
a chuva e abrindo a porta pegou na minha mão começando a me puxar para fora do
carro. Fiquei atordoado com aquela atitude inesperada e repentina. Tentando
resistir, mas no fundo no fundo, querendo topar aquela brincadeira engraçada,
porém sem nenhum sentido, fui saindo do carro sem oferecer muita resistência,
sendo puxado pelo braço assim como, nós os adultos, fazemos com as crianças.
Quando percebi, lá estava eu no meio do pátio de automóveis com a chuva que
caía molhando gostosamente todo o meu corpo. Ah! Que sensação gostosa - reminiscência
instantânea do passado distante. Parecia que era a primeira vez que aquilo me
sucedia. O menino então gritou, pois a chuva era forte e fazia muito barulho.
¾ Vou contar até treis. Um, dois e... não tive tempo de
dizer mais nada e ele já estava correndo como um coelho.
Dei meus primeiros passos e com grande
impulso comecei a correr pra valer, pois percebi que se assim não fosse, não
iria alcançá-lo. As passadas largas, com as quais eu contava para ganhar aquela
corrida maluca, faziam espirrar água para todos os lados, mas as poças d’água,
das quais eu tentava me esquivar, atrapalhavam-me terrivelmente. Percebi logo
que não iria alcançar aquele garoto, que além de esperto era muito vigoroso.
Não demorou muito para que a minha suspeita se confirmasse, quando me
desvencilhei das poças d’água, percebi que ele havia chegado ao portão primeiro
do que eu, apenas alguns segundos na minha frente, porém o suficiente para
ganhar a corrida. As minhas largas passadas de nada me valeram.
Sorridente, vangloriando-se do seu grande
feito, da sua vitória, do seu sucesso, o garoto com cara de grande satisfação e
prazer, agarrado ao portão, olhava só para mim. Sentindo-me em frangalhos e
amparado num veículo qualquer, mal conseguia vê-lo direito, os bofes estavam de
fora, o fôlego já não me saía de dentro dos pulmões infectados de nicotina e
fuligem da cidade grande, os cabelos e os sapatos encharcados, a roupa pesando
quase que uma tonelada. Para cair de vez ao chão, bastava-me apenas um
empurrão.
Subitamente, me dei conta de que o pior
ainda estava por vir, porque afinal eu havia perdido a corrida e
conseqüentemente teria que pagar a aposta, ou seja, teria - vejam só! que me
servir de cavalinho para o menino travesso. Se perder a corrida já havia sido
humilhante que dirá servir-se de cavalinho para um garoto gozador e brincalhão?
Cheguei ao portão do pátio. Para minha
surpresa o menino não estava mais lá. Caminhei ainda por alguns metros à
procura do meu pequeno amigo, que por certo estava prestes a pregar uma peça em
mim, mas não o avistei. Não sabia seu nome, como poderia perguntar por ele?
Intrigado com aquele súbito desaparecimento, segui a passos lentos em direção
ao meu carro. Pensando sobre tudo o que havia acontecido tão repentinamente e
de um modo surpreendente, procurei explicações mas não as encontrei. Teria sido
um sonho? Não, não poderia ser, estivera o tempo todo acordado e minha roupa
estava molhada. Então o que teria acontecido? Alucinação? Tenho vivido num
corre-corre frenético com horas contadas pra tudo, será que havia enlouquecido
de vez e agora restava-me apenas o caminho do hospício?
Sentei-me ao volante, enxuguei as mãos e o
rosto de onde ainda pingavam gotas de chuva. Olhando ao redor atentamente à
procura do menino, fui saindo lentamente daquele misterioso pátio dirigindo meu
carro, quando ganhei a rua dei ainda uma última olhadela através do retrovisor,
na esperança de ver ainda que distante aquele sorriso maroto, quase que imperceptível no rosto de traços delicados
que dava gosto de ver.
Fui ao encontro do meu destino onde uma
surpresa me aguardava. Ao deixar o carro uma pessoa desconhecida aproximou-se
de mim e com delicadeza, retirou das minhas calças no meu traseiro algo que lá
estivera grudado por algum tempo. Era um chiclete de bola, ou melhor, os restos
de um chiclete deixado ali por um garoto maroto que eu conhecia muito bem. É
certo que eu não sabia por onde ele andava, mas sabia que ele existia, existia
sim em algum lugar deste ou de outro mundo. Quem sabe?
***
A Internet E Graham Bell
S
e Graham Bell, o inventor do
telefone, ainda estivesse vivo, certamente seria além de um milionário
excêntrico, caso houvesse investido na sua invenção, como também estaria tanto
satisfeito com o futuro do seu negócio, quanto orgulhoso da utilização do
mesmo. Explico: é verdade que há muito tempo, quando do início das comunicações
telefônicas, era pressuposto que os telefones serviriam essencialmente para
substituir aquele vagaroso mensageiro, que levava dias para entregar uma
mensagem escrita ao destinatário, o qual poderia estar a apenas 5 milhas do remetente
ou a 100 milhas. Contrariando este pressuposto inicial, as donas de casa, no
final do século passado, já trocavam receitas de bolo através do telefone,
mesmo que para isto fosse preciso várias tentativas de conexão - realizadas na
maioria das vezes a maniveladas, seguidas de gritos ensurdecedores. O tempo
passou, a era da tecnologia chegou e com ela o telefone tornou-se o mais
importante meio de comunicação deste final de século. Sem o telefone e os
milhões de informações que trafegam a todo instante por ele, entre todos os
cantos deste planeta, estaríamos fadados a um colapso global nas comunicações e
porque não a um gigantesco atraso no desenvolvimento do conhecimento humano.
Assim, como da noite para o dia, nasceu o que chamamos atualmente de Infoway -
Rodovia da Informação, este turbilhão de informações que circunda o planeta e
que tem a sua espinha dorsal baseada no telefone e na transmissão de dados via
satélite. Parte integrante desta Rodovia, a cerca de 10 anos, nos E.U.A, surgiu
a Internet como a conhecemos hoje. O que parecia, a princípio, apenas um
sistema que interligava computadores, cujo objetivo era o de efetuar trocas de
arquivos e mensagens entre postos de informações estratégicos de defesa
nacional criados pelo Pentágono norte-americano, logo ganhou o domínio das universidades
daquele país. As universidades, por sua vez, passaram a utilizá-lo intensamente
para pesquisas e estudos nas áreas da ciência da computação, até que, em uma
delas, um estudante desenvolveu uma linguagem de interface gráfica, que levou à
criação do software mais conhecido do mundo, o Netscape.
Com a proliferação do computador pessoal no uso doméstico, o que se viu
foi que, rapidamente, a Internet deixou os meios científicos e militares para
ganhar o domínio popular nos E.U.A e no resto do mundo a seguir. Muitos atribuem este sucesso ao fato da Internet trazer, na
sua essência, uma proposta inédita no mundo da informação, isto é, a de
disponibilizar a informação requerida pelo usuário, de forma universal e
onipresente.
Todavia, o sucesso da Internet deu-se muito mais através da World Wide
Web, as já conhecidas páginas www, do que pelos demais recursos que ela
oferece, ainda desconhecidos do público em geral. Estas páginas, verdadeiros
livros virtuais, folheadas literalmente página por página, contêm recursos
gráficos cada vez melhores, oferecendo um potencial enorme de disseminação
entre usuários de imagens e textos, em outras palavras, de informação. A informação,
tanto pode ser um palavrão escrito por um jovem adolescente num dos quatro
cantos do mundo, durante um bate-papo
numa sala virtual, quanto pode ser o número de uma polpuda conta corrente num
banco Suíço. Ambas, podem ser vistas ao mesmo tempo por diversas pessoas em
diferentes lugares, proporcionando assim o efeito da onipresença. A informação
passa a ser também universal, visto que pode estar aqui no meu computador, ali
no do vizinho, ou em qualquer outro lugar, o importante é que ela está em algum
computador conectado à rede, basta acessá-la para usá-la, como quiser e quando
quiser. É claro que, no caso da conta corrente, o acesso dependerá de uma senha
codificada pelo banco onde a conta se encontra. Mas, na Internet, as coisas são
assim mesmo, toda informação tem o seu valor absoluto igual, não há
diferenciações, o grau de importância é dado pelo usuário. Se ele deseja
realizar uma viagem à Grécia, torna-se importante obter informações sobre este
país, mas se deseja ler a biblioteca do Vaticano com o intuito de ampliar seus
conhecimentos sobre história universal, é só dar um pulinho lá, quero dizer,
virtualmente através das www’s e pronto, tudo estará disponível para seu uso.
A Internet nos leva ao século XXI, hoje mesmo, quando podemos finalmente,
como nos filmes de Júlio Verne, fazer com que a máquina seja nossa aliada, não
só em tarefas complexas, como também no lazer e nos afazeres corriqueiros, tal
como ir às compras no supermercado sem sair de casa, encomendar um livro, um
CD, ou enviar uma carta em poucos segundos a um amigo que se mudou para a
Austrália. Esta flexibilidade entusiasma qualquer pessoa, mas assusta quem
ainda não acredita que o homem foi à Lua.
Há ainda, por dizer, que a maior virtude da Internet não está fora
dela, mas sim nela mesma como uma célula, um organismo vivo que contêm a
informação da qual precisa para se desenvolver e, deste modo, propiciar o seu
auto-crescimento, isto por si só, justifica o seu desenvolvimento espantoso em
tão pouco tempo. Só para citar um exemplo, há bem poucos meses, meu filho de 15
anos desconhecia por completo a estrutura de confecção de uma página www, hoje,
orgulhosamente exibe a sua para seus amigos e ainda se oferece para realizar
este e outros serviços que ele habilmente soube pesquisar e encontrar na própria
Internet.
Se a revolução industrial trouxe ao Homem as máquinas, a Internet com a
sua concepção anárquica trouxe ao Homem a facilidade da obtenção do
conhecimento, de maneira audaciosa e de forma universal, ou seja, sem limites,
fronteiras, barreiras, etc, preparando-o para um salto em direção ao futuro,
onde desenvolverá a sua inteligência e tratará dos músculos para apenas
embelezar ainda mais o corpo que Deus lhe deu.
Portanto, caro leitor, concluo que se Graham Bell estivesse vivo poderia
dizer que havia se arrependido muito se não houvesse investido nesse negócio de
telefone, mas por outro lado, estaria muitíssimo orgulhoso pela enorme
contribuição que fez à evolução do Homem, sobretudo para a disseminação do
conhecimento nos quatro cantos do mundo, como jamais houve anteriormente na
história da humanidade.
***
Paraíso no Paraíso
E
ncantado com os primeiros raios solares daquele dia, que douravam toda
a vegetação serrana próxima à cidade dos ipês, São Sebastião do Paraíso, na
medida que nosso automóvel deslizava pela tortuosa rodovia, que nos levaria ao
sítio do amigo e poeta Olavo Borges, não me foi difícil perceber o capricho da
mãe natureza com esta região do sudoeste mineiro,
Antes
de passar a descrever tudo que vi e senti, faz-se necessário dizer que Minas
Gerais com suas montanhas e vales é o Estado brasileiro onde Deus, o Criador,
não poupou esforços para embelezá-lo. Com efeito, como um verdadeiro artista,
utilizando-se de uma topografia irregular e assimétrica, criou formações
rochosas e lugares exóticos facilmente perceptíveis pelo visitante, o qual
saberá sempre reconhecer este Estado, toda vez em que dele se aproximar.
Acrescente-se à geografia o seu povo alegre e hospitaleiro, a sua gostosa e
típica comida... Entre outras nuanças, são estes detalhes que o difere dos
demais Estados brasileiros.
O astro rei, no horizonte, ao alto, brilhava
com intensidade naquela manhãzinha, prometendo um dia ensolarado, enquanto
seguíamos em direção ao sítio Chaparral. A brisa, típica de um dia de inverno
nas montanhas, soprava com um agradável e inebriante frescor. À nossa frente,
depois de alguns quilômetros percorridos desde o centro da cidade, avistava-se
do cume da montanha, logo na entrada do sítio,
o conhecido símbolo das duas rodas de carruagem, que, dispostas
lado-a-lado, formavam a portaria principal de cor avermelhada. Fomos adentrando
o belo e formoso lugar, percorrendo as suas bem conservadas estradinhas,
dispostas como se pertencessem a uma casinha de brinquedos. Por falar em
casinha de brinquedos, havia uma que assemelhava-se a tal, construída com
esmero e circundada por água corrente, onde aves aquáticas flutuavam como num
conto de fadas. As imagens vistas por este escritor eram como fantasias tiradas
de um bonito sonho de criança.
Olavo, nos aguardava com estilo próprio de
bom anfitrião, sobretudo com muito carinho. Fomos chegando, nos abraçando,
sorrindo, nos sentindo como se estivéssemos numa grande família. Assim eu me
sentia. Assim todos se manifestavam, isto é, com alegria, contentamento e
fraternidade.
Os momentos agradáveis sucediam-se de forma
envolvente e extasiante, durante aquele dia especial, para com todos que ali se
faziam presentes.
Durante uma incursão que fiz no interior do
sítio, deparei-me com um lugar todo especial. Um lago cristalino proveniente de
uma das diversas nascentes existentes no sítio, cheio de vida e com seu leito
repleto de vegetação. O lago era simplesmente lindo e sua água gostosamente
límpida e fria. Em outra incursão que fiz, desta feita no pomar em formação,
pude saborear algumas laranjas apanhadas diretamente da laranjeira. Talvez,
amigo leitor, estes fatos pitorescos não lhe tragam tanta emoção. Contudo, para
nós pessoas acostumadas a viver em grandes cidades, onde a qualidade de vida
está se deteriorando a cada dia que passa, torna-se maravilhoso permanecer,
ainda que por poucos instantes, num lugar como este.
Diante do jardim, mantido com carinho, fiquei
observando tudo à minha volta. Sob a quietude que reinava no ar, quebrada
apenas pelo cantar de um bem-te-vi, as lembranças de um passado já distante
vieram-me à mente. Dias vividos no alvorecer da adolescência, nesta pacata,
hospitaleira e pujante cidade dos Ipês, chamada carinhosamente por seus
moradores de Paraíso.
Lembrei-me de quando ainda era uma criança,
quando por diversas vezes estivera na Fazenda do Zoroastro, onde eu e meu irmão
Jessé gostávamos de realizar nossas pescarias de lambaris, história que já
contei em outra oportunidade.
No meu estado de observação, encantei-me com
um pé de Primavera carregadinho de flores, com seus galhos vertendo sobre o
telhado de um puxado construído pelo Olavo, especialmente para abrigar os
amigos. Naquele momento, pairava no ar um gostoso aroma de churrasco,
convidando-nos a saborear a gostosa “carne assada no bafo” preparada no
capricho pelo Tomzé. Do pé de Primavera, além da lembrança gravada em mente,
fiquei para sempre com uma bela fotografia que, ao ser revelada, inspirou-me a
escrever esta crônica.
Ao final daquele dia que me trouxera tanta
alegria e contentamento, brotou-me de forma espontânea e natural, como que a
sintetizar toda a emoção vivida, uma frase singular: Estava diante do “Paraíso
no Paraíso”. Desnecessário dizer que o primeiro Paraíso era aquele lindo sítio
do amigo Olavo, do qual jamais me esquecerei. Um merecido presente de Papai do
Céu para ele, sua família e seus amigos. O segundo Paraíso é a própria cidade,
a qual, como um Jardim do Éden abriga carinhosamente seus filhos, seus
imigrantes e todos que nela habitam, a amam e a tratam com zelo e respeito.
Oh! Paraíso! Ainda que distante de ti há
tanto tempo, toda vez que a visito a saudade bate no meu peito e sinto-me como
uma ovelha desgarrada. Porém, quiçá um dia, ao rebanho voltarei e mais feliz
viverei o resto dos meus dias com você...
Tributo a Paraíso
Levando ilusão no coração
Em busca de uma nova vida
Esta cidade, Paraíso, terra querida
Certo dia, me viu partir sob forte comoção.
Andei por tantas outras diversas
cidades
Vi aqui e ali desilusão e calamidades
Por onde quer que já passei
De ti, Paraíso, sempre falei...
De saudades de ti sempre me
queixei
Até para íntimos amigos
confessei
Que um dia para perto de ti
voltaria
Cidade Paraíso, cidade dos Ipês,
cidade alegria.
Espere por mim meu torrão, meu Paraíso
De braços abertos e com um
grande sorriso
Qual mãe que recebe seu filho,
um dia perdido,
Mas que sempre será seu filho...
filho querido.
***
Vírus Virtual
N
a semana passada, queixando-me de dores, fui ao médico. Mais uma entre
tantas outras vezes em que fui ao médico, queixando-me de dores, assim como
quase todo cidadão que mora nesta cidadezinha de 14 milhões de habitantes,
chamada São Paulo. Lá chegando, fui logo dizendo ao médico os meus sintomas.
Sim, eram tantos e tão intensos que pareciam ser somente meus e de mais
ninguém.
— Doutor, não consigo dormir. Passo a noite
em claro, mas de manhã, morro de sono.
— O que mais você sente? Perguntou-me o
médico.
— Doutor. Sinto dores lombares, nos braços,
pernas e nas articulações das mãos.
O médico, um senhor de meia-idade,
experiente no atendimento ambulatorial, olhando sobre as lentes dos antiquados
óculos, sorrindo levemente, acrescentou.
— Tem dores de cabeça, sonolência, irritação
constante?
— Sim doutor, como sabe disto?
— É que, ultimamente, de cada 10 pacientes
que vêm a este ambulatório, 8 se queixam dos mesmos sintomas.
— É doutor? Então que doença é esta que
aflige tanta gente assim.? Sem titubear, o médico respondeu.
— Internet.
— INTERRRRNET? O que é isto doutor,
enlouqueceu? Isto não é nome de doença. É nome de... de computador, doutor.
— Sim. Eu sei que é algo relacionado com
computador, no entanto estamos diante de uma verdadeira epidemia de final de
século.
— Epidemia doutor? O senhor quer dizer que
estou contaminado?
— Sim, o senhor está contaminado...
— Por um vírus?
— Digamos que sim. Isto é, não chega a ser
um vírus. Todavia os sintomas são os mesmos causados por vírus, como o vírus da
gripe por exemplo.
— Ah! Então estou contaminado por um vírus
virtual, cujo comportamento se assemelha ao vírus da gripe que é real?
— É exatamente isto, meu amigo. Concluiu
enfaticamente o doutor, balançando afirmativamente a grande cabeça, onde quase
não se via mais cabelos.
Diante daquele diagnóstico muito estranho,
cheguei a pensar que estava diante de um médico maluco, ou que não sabia o que
estava dizendo, ou estava zombando de mim. Para ter certeza de uma coisa ou de
outra, resolvi investigar, perguntando-lhe sobre o diagnóstico cibernético.
— Doutor Alexander Bi.. como é mesmo seu sobrenome?
— Bits. Respondeu-me o médico.
— Pois bem, Dr. Bits. Como é que o senhor
atribui todos estes sintomas, sobre os quais lhe falei, a um vírus? Justo eu,
que aparento saúde perfeita. Mas, pelo visto, encontro-me de fato doente pois
não gozo de bem estar nem físico nem mental. Isto se levarmos em conta o
conceito de saúde definido pela Organização Mundial de Saúde...
— Meu rapaz, posso lhe garantir que o seu
caso, como o de muitos outros, tem como causa principal a Internet. Haja vista
que, você sabe muito bem, quando se está diante de uma tela de computador
conectado à rede mundial da Internet, torna-se quase que impossível deixá-lo em
poucos minutos. A começar pelo tempo que se leva para fazer as conecções via
linha telefônica, normalmente, cheio de imprevistos, como linhas congestionadas
e interrupções de chamadas. Depois, o tempo de acesso a cada página,
transforma-se em longos minutos que se parecem com a eternidade, mas o que
demanda tempo mesmo é o tal de Chat - local onde as pessoas conversam entre si
trocando mensagens. No Chat, normalmente sob codinomes ou pseudônimos, as
pessoas passam horas e mais horas conversando, fofocando, confessando segredos,
conhecendo outras pessoas, fazendo amizades, revelando personalidades
escondidas e desejos reprimidos. Falam de amenidades, matam a solidão que as
assolam na era da tecnologia, sem a supervisão do superego.
— Sabe Dr. Bits, não consigo passar um dia
sequer sem acessar a Internet e, depois que entro, não quero sair mais. As
horas voam e a minha curiosidade não cessa nunca. Vejo tudo, “visito” diversas
páginas chamadas pelos internautas - pessoas que acessam a Internet, de
“sites”. Sem falar do tal do Chat, que é realmente ótimo, por onde não consigo
deixar de passar também. Acho que o senhor realmente tem razão ao afirmar que o
meu mal é Internet. Mas, o que faço então Dr. Bits? Vendo o computador? Não vou
mais à Internet?
— Creio que nem uma coisa nem outra. Tente
seguir uma disciplina de horário toda vez em que estiver diante da telinha do
computador. Você, precocemente, já está sofrendo os males do futuro, quando a
quantidade de horas despendidas diante de um computador será muito maior do que
hoje. Há ainda um outro lado quase que imperceptível. O lado psicológico, ou
seja, a maioria das pessoas não sabem ainda lidar com coisas virtuais - o que
pode ser visto e observado, mas não pode ser materializado.
Na Internet tudo pode ser visto, mas muito
pouco e bem pouco pode ser trazido do mundo virtual para a realidade, causando
frustrações e sensações de vazio no internauta. É como um astronauta que, após
observar os astros, retorna da sua viagem espacial sem uma conquista, sem algo
que possa ser mostrado, como faziam seus ancestrais, que após a caçada, exibiam
seus troféus. Desta forma, os internautas na sua maioria são levados a sofrerem
constantemente depressões de cunho psicológico, cujos efeitos e desdobramentos
no comportamento humano ainda são desconhecidos da ciência.
— Nossa Dr. Bits, o senhor está me dando uma
verdadeira aula sobre a Internet e os malefícios que ela causa ao homem. E os
benefícios?
— Bem, os benefícios são vários. Se a
revolução industrial trouxe ao homem as máquinas, a Internet com a sua
concepção anárquica trouxe ao homem a facilidade da obtenção do conhecimento,
de maneira audaciosa e de forma universal, ou seja, sem limites, fronteiras,
barreiras, etc, preparando-o para um salto em direção ao futuro, onde desenvolverá
a sua inteligência e tratará dos músculos para apenas embelezar ainda mais o
corpo que Deus lhe deu.
— Bem, Dr. Bits, agora que aprendi mais
ainda sobre a Internet, como fica o meu tratamento?
— O
seu tratamento é muito simples. Mantenha seu computador desligado durante um
mês. Notará que ainda é possível viver sem ele. Após este período, se apresente
ao seu computador como se estivesse no século XXI, tornando-o seu aliado não só
em tarefas complexas, como também no lazer e nos afazeres corriqueiros, assim
como ir às compras no supermercado sem sair de casa, encomendar um livro, um
CD, ou enviar uma carta em poucos segundos a um amigo que se mudou para a
Austrália. Depois de realizar tudo isto, você se sentirá muito melhor. Não mais
como escravo do computador, tal como está se sentindo agora.
— Bem Doutor Bits. Foi um prazer conhecê-lo,
sobretudo tomar conhecimento de tudo que me foi dito. Prometo que seguirei à
risca o receituário.
— Muito bem, meu rapaz. Uma última pergunta:
você já ouviu falar da linguagem Java?
— Não doutor, mas acho que o vírus já o
contaminou também, não?
***
Modo
De Vida
H
ouve uma época em que começaram a surgir em São Paulo os restaurantes
por quilo. Eram restaurantes chamados inicialmente de Self-Service que,
contrariando os restaurantes tradicionais, tanto no estilo de servir, quanto no
preço final das refeições, tentavam estabelecer uma nova maneira de fazer e
vender refeições rápidas, sobretudo, de baixo custo para o freguês. Estes pequenos
restaurantes que foram surgindo aqui e ali, vencendo pouco a pouco as barreiras
dos costumes estabelecidos estão hoje, ao ponto de dizimarem por completo os
restaurantes tradicionais, que ainda insistem no chamado serviço “a la carte”.
Ganharam a guerra do mercado com apenas duas armas: rapidez e preço baixo, deixando de lado o
pseudônimo americano Self-Service e assumindo de uma vez por todas a identidade
de restaurante por quilo do jeito bem brasileiro. Duas coisas que o paulistano
busca, durante toda sua vida e
incansavelmente até a morte é: economizar tempo e dinheiro. Custe o que custar,
saia de onde sair, o tempo tem-se de ter e o dinheiro tem-se de ganhar de qualquer
jeito.
Nós, os paulistanos, além da busca
incessante do tempo e do dinheiro, estamos a todo momento criando novos modos.
Agora mesmo estava eu verificando a minha caixa postal. É, mas não a caixa
postal tradicional, aquela que você vai até o portão de sua casa, dá uma
olhadinha na caixinha para ver o que foi que o carteiro deixou ali pra você.
Cobranças não faltam, aliás, estas vêem rapidinho. Propagandas chegam aos
montes. Carta de um amigo? Raramente há uma na caixinha. A minha caixa postal é
uma caixa postal virtual. Muito embora não possa tocá-la, porque não é
concreta, isto é, não é feita de plástico, de madeira ou de ferro, tem a minha
caixa postal significado de caixa mas não significante, e como dizem os entendidos
— está na rede mundial da Internet — a
moda do momento. Através dela, recebo quase que diariamente correspondências
diversas, que podem ser apenas uma, podemos dizer, cartinha, com duas ou três
linhas, ou até mesmo uma longa carta que ainda traz no seu conteúdo na forma de
anexo, uma fotografia, para não dizer um arquivo qualquer com qualquer
informação. Em suma, para não complicar, recebo mensagens chamadas de arquivos
que podem se transformar em cartas, cartinhas, cartões, memorandos, circulares,
textos explicativos, textos descritivos, etc e tal. De modo que uma impressora,
num instante, se incumbe de “dar vida” às informações recebidas.
Ainda um dia destes, recebi de um amigo
virtual, uma foto de seu filho de 9 meses, quero dizer virtual porque não o
conheço pessoalmente, mas tudo indica que ele existe mesmo e é feito de carne e
osso. Ele, meu amigo Antero Coelho, é fotógrafo profissional e nos conhecemos
depois que “visitei seu site”, explico o que é isto num minuto: em um
computador num lugar qualquer há algumas informações elaboradas pelo meu amigo
virtual sobre a sua carreira profissional e outras coisas mais. Neste tal computador,
há um endereço que permite o acesso às informações dele, tipo código, tal qual
aqueles que nós, quando crianças, utilizávamos para nos comunicar durante as
“batalhas” e dizíamos: PKZYZERO falando, responde PKZYUM... é este endereço, divulgado
em algum lugar, que chegou ao meu conhecimento. Utilizei-o para então “visitar
o site” do fotógrafo e saber também do endereço da sua caixa postal. A partir
daí, começamos a nos corresponder como se fôssemos vizinhos, mas sei, desde já,
que ele reside a mais de 500 quilômetros da minha cidade. Sua residência
poderia estar a mais de 1.000 quilômetros que isto não faria a menor diferença,
graças à tecnologia do século XXI embutida no computador doméstico e, por que
não, chamado de domesticado também, já que pessoas normais como eu e você
leitor, leigos no assunto, a partir de nossas casas, e como se estivéssemos
datilografando, estamos dominando este bicho-papão chamado de computador.
Do restaurante por quilo ao computador há
sempre modas que se vão e modas que se vêm e há ainda desdobramentos de modas
que não acabam mais. Do restaurante por quilo, surgiram com o sorvete por
quilo, a roupa lavada por quilo, o sacolão de frutas, verdura e legumes e uma
infinidade de coisas vendidas por quilo. Só está faltando o amor por quilo, mas
não vai demorar muito para surgir. Já imaginaram?
— Quanto é o quilo?
— Um real
— Tudo isto? Não faz por oitenta? Engordei 5
quilos desde a última vez que estive aqui e isto faz diferença no preço.
— Tá bom, mas se você estiver pesando menos
que 70 quilos, você paga 70, certo?
Falta pouco para isto também virar moda, mas
o que já está na moda, segundo Rosely Sayão, sexóloga, é o strep-tease, que, graças ao filminho da
Demi Moore, tem levado donas de casa, senhoras e senhoritas em busca de
melhorias no ato de amor a praticarem, durante cursos de strep-tease que se
realizam em diversos locais na cidade, esta arte dos cabarés e dos saloons, que
nós os homens tanto adoramos a séculos, afinal os olhos são partes integrantes
do nosso aparelho sexual - é o que dizem. Esta vicissitude está na espécie, no
instinto animal do macho, que antes de possuir a sua presa, olha-a, observa-a,
esquadrinha-a detalhadamente, tal qual uma máquina fotográfica tirando milhares
de fotos por minuto. Fecho a questão do amor com a Rosely que diz: não adianta,
o amor vem de dentro, não basta apelar para formas mágicas exteriorizadas, há
que se ter sentimento antes de mais nada.
Querem saber de mais uma coisa? Eu mesmo
acho que estou sempre aderindo à moda, às vezes, sem perceber ou até por
necessidade. Tive telefone celular, mas não gostei. Apesar de estar na moda,
funciona só quando ele quer, é caro, indiscreto, vicia e ainda perturba nos
lugares mais inconvenientes. Recentemente fiz laparoscopia. Não sabe o que é
isto? É um novo método de cirurgia com instrumentos e vídeo. É o máximo. Você
não sente nada. Bem, quero dizer... sente-se, por alguns dias, como um sapo
inchado, mas depois fica bom logo. Daí é só malhar numa academia e tudo volta
como era antes ou melhor. Fale com o seu médico, quem sabe ele faz uma em você
e aí você sai dizendo para todo mundo, assim como eu, e fica observando a cara
de espanto das pessoas quando disser: videolaparoscopia.
Há modas que eu jamais participaria. Uma
delas é um tal de jumping bungee, se é que é isto mesmo. Consiste em um salto
livre de uma altura equivalente a, digamos, creio eu, 30 metros ou mais o que
eqüivale à altura de um edifício de 10 andares. O sujeito é içado por um
guindaste numa gaiola de ferro e, de lá de cima, amarrado por uma corda
elástica, salta em queda livre. Espero que jamais a tal corda venha ser maior
do que a distância da altura que o guindaste subiu a gaiola. Certo dia,
observei dois ou três destes saltos e concluí comigo mesmo de forma brilhante,
qual um grande pensador: se eu tivesse nascido com asas deveria voar, mas nasci
com pés, logo devo andar. Já foi uma grande ousadia de meus ancestrais, depois
de milhões de anos, passar a andar sobre dois membros no lugar de quatro. Que o
diga nossa coluna vertebral, que nos dias de hoje, reclama, reclama... e enchem
de gente as clínicas de fisioterapia e ortopedia.
Falando em voar... bem este assunto, deixo
para outro dia, há muito para se falar ultimamente, neste ano de bruxas soltas
pelos ares.
***
Em
Tempos De Covardia
— E agora, o repórter Antônio Celso, com
mais notícias da Ronda na Cidade.
— Muito bom dia ouvintes. Nesta manhã de
segunda-feira, a cidade mais uma vez conta os mortos nos seus quatro cantos. A
violência anda solta e faz vítimas a todo instante. Neste final de semana, mais
de 12 assassinatos na grande São Paulo, 16 registros de furtos, 15 atropelamentos
com vítimas, 21 assaltos à mão armada. Na região dos Jardins, os assaltos a
motoristas continuam acontecendo com muita freqüência, por isso avisamos a todos que circulam na região: mantenham os
vidros de seus veículos fechados o tempo todo, atenção redobrada nos sinais de
trânsito, e não dêem esmolas a pedintes que, muitas vezes, estão à espreita
para ameaçar os motoristas com armas brancas, estiletes e revólveres de
verdade. Logo mais, estaremos de volta com mais notícias da Ronda na Cidade. Antônio
Celso direto para o jornal da manhã da rádio CCNT - a rádio feita pra você.
Caro leitor. Estas são as notícias
corriqueiras que ouvimos todos os dias aqui na cidade. Já estamos acostumados
com elas. Os números, a quantidade já não nos chocam mais. Agora, hoje o que
nos deixa mais chocado é a forma, o grau de atrocidade e o estilo da malvadeza
dos assassinatos. Ah! meu caro, quando se sabe de um crime cometido de forma
diferente, mais odiondo e perverso, do tipo filho assassina pai e vice e versa,
isto sim assusta e aterroriza a maioria das pessoas.
***
Nos tempos do velho oeste norte-americano,
quando havia um mal-entendido entre dois cavalheiros e, se apenas um deles
estivesse armado, era marcado um duelo. Vencia o mais rápido. Entretanto, se
por ocasião da desavença, o cavalheiro armado sacasse de sua arma, alvejando
covardemente seu oponente desarmado, caberiam ao assassino apenas dois
caminhos: a fuga, na condição de renegado procurado vivo ou morto, ou a forca
com execução sumária em praça pública.
Dos tempos do velho oeste norte-americano
até hoje, muita coisa no mundo e no homem mudou. O mundo é um novo mundo. Desde
os descobrimentos do século XV, a sua divisão geopolítica mudou por inúmeras
vezes, através de revoluções, guerras,
ideologias tiranas, pactos e acordos. O homem, por sua vez, tornou-se
cada vez mais civilizado, adquiriu cultura, abandonou velhos hábitos
grosseiros, adquiriu novos costumes enfim, tornou-se um novo homem, menos rude
mais social. Será mesmo? Mais social?
***
Do menino de rua que ameaça o motorista
assustado ao crime organizado há muitos caminhos, que passam pela neurose
coletiva da vida urbana. Essa vida moderna e maluca - muitas vezes sem pé sem
cabeça, que nos envolve num corre-corre enlouquecedor. Por estarmos sempre tão
ocupados não nos damos conta de que o menino armado, na maioria das vezes, se
sente muito mais amedrontado do que a vítima postada à sua frente, pois é a
fome que o leva ao desespero, perturba-lhe a mente, corrói-lhe a alma, a
dignidade, o amor-próprio. Você alguma vez já notou a profunda tristeza que há
no olhar de uma criança com fome? É de cortar o coração esta tragédia que há
tempos assola a humanidade.
Será esta a causa principal da angústia que
perturba o espírito do pequeno agressor e que o leva covardemente ao primeiro
delito, ao segundo e ao crime organizado? Será ele um covarde capaz de, sem
pestanejar, friamente, tirar a vida do jovem, do idoso, do homem, da mulher,
não se importando quem venha a ser a vítima, sem lhe dar a menor chance de
defesa? Ou a covardia teria sido cometida pelos seus irresponsáveis pais, que
numa noite fria qualquer o abandonaram enrolado em papelões imundos, sob um
viaduto de uma grande cidade qualquer, cheia de gente, de concreto e de
máquinas barulhentas e assustadoras, para uma criança que, no fundo no fundo,
só queria brincar e descobrir por ela mesma o mundo real para tentar viver,
ainda que um pouco, um mundo de sonhos, já que a realidade costuma ser um pouco
dura pra todos? Os sonhos que da noite para o dia, como o éter que se evapora
rapidamente, deixaram de existir na sua
pequena e iniciante vida. A vida, a bela vida; uma dádiva do Criador que, por
um golpe do destino, desde então, passa a ser um pesadelo para esta criança,
guiada unicamente pelo instinto que tenta, a duras penas, sobreviver numa selva
de pedras. Será que vai conseguir? Covardia do dia a dia.
***
Ultimamente, nós aqui da cidade grande,
adquirimos o hábito de olhar para o céu. Não por que o céu da capital
paulistana tenha, de uma hora para a outra, se tornado límpido, de cores azuis
e sol brilhante, como um dia ensolarado no alto da montanha. É que todos por
aqui olham para o céu toda vez que, ainda ao longe, se ouve o barulho de um
aeroplano - aparelho apelidado de avião, sustentado por duas asas e
impulsionado por um motor girante de uma ou mais hélices, ou ainda por duas ou
mais turbinas. A princípio, tentamos identificar, como se fossemos peritos em
aviação, a uniformidade do som produzido pelas possantes turbinas. Possantes?
Será que não exagerei no adjetivo? Vejamos:
No último dia do mês de outubro deste ano,
denominado dia das bruxas - antes pudéssemos saltar do dia 30 para o primeiro
de novembro - dia de todos os santos, logo pela manhã, a cidade de São Paulo
ficou estarrecida com o horrendo acidente aéreo acontecido com o avião da TAM.
Explicações à parte, que se sucederam a posteriori, o fato é que mais de cem
vidas se foram num pequeno instante. Mas, como fica a potência da turbina? Será
que uma delas com sua potência máxima não seria suficiente para fazer levantar
vôo a aeronave, já que a outra turbina estava lá “brigando” com o tal reverso?
E a potência dos computadores de bordo? E os de terra? Potências à parte, nada
impediu o desastre, nem mesmo a astúcia e a habilidade do experiente piloto
foram suficientes. Em minutos de apreensão, medo e pavor, sem que se pudesse
fazer alguma coisa, cem valorosas vidas sucumbiram-se às forças misteriosas do
mundo da aviação, que freqüentemente nos últimos tempos, desaparece
covardemente com um avião e tudo o mais que há dentro dele, pois, como se sabe,
as chances de sobrevivência num acidente aéreo são mínimas. Raios de tecnologia
que deixa todo mundo na mão. Covardia tecnológica em pleno século XXI.
***
— E agora as dicas de gastronomia com Milton
Campos.
— Boa noite ouvintes. Hoje vamos falar de um
restaurante, ainda pouco conhecido, cuja especialidade é a comida Italiana com
um toque de serviço Francês. Este restaurante, que fica na região dos Jardins,
oferece para o jantar deliciosas massas com legítimo tempero Italiano, que faz
lembrar aquelas gostosas macarronadas de domingo na casa da Mama. Sem contar o
serviço que é mesmo muito bom. Melhor
ainda é o preço: apenas R$ 30,00 em média por pessoa. O que não é muito caro,
levando-se em conta o serviço e a boa qualidade da comida.
A não ser que você leitor, seja um
solteirão, um ermitão ou um lobo solitário, sempre estará acompanhado para o
jantar no tal restaurante pouco conhecido. Portanto, a despesa será dobrada, ou
seja, R$ 60,00, fora a caixinha para o manobrista, etc e tal. Será que R$ 60,00
nos tempos atuais é pouco dinheiro, mesmo para você gastar assim, num jantar
corriqueiro, à base de macarrão?
Quanto custa o macarrão? Quer saber? R$
1,97. Capeletti, não é Spaghetti não, e dá para duas pessoas, podendo até
sobrar um bocadinho. E se fosse arroz, a base da alimentação do mundo, quanto
seria? R$ 3,89 o pacote de 5 kg, comprado num hipermercado de bairro de classe
média. Ora, então com R$ 60,00 daria para comprar, vejamos... 77 kg à base de
R$ 0,778 o quilo e, com isto, seria bastante provável que o casal pudesse se
alimentar de arroz o ano inteiro. Será mesmo que o jantar, anunciado com tanto
entusiasmo pelo repórter, é barato?
Através de uma pequena análise comparativa,
sabe-se que o jantar, é de longe caro, muito caro para os padrões de vida dos
brasileiros, os quais ainda não se deram conta de que há entre nós 60 milhões
de miseráveis. São 60 milhões de desafortunados, com renda mensal abaixo de US$
100,00, engajados nos programas de combate à fome, que não dão conta do recado.
Covardia que fazemos de conta que não existe. Deixa pra lá. É Natal, Papai Noel
de um jeito ou de outro virá, não é mesmo?
***
Verão de 1995
N
o verão de 1995, após um dia de trabalho, dirigia meu automóvel tranqüilamente por uma das ruas mais
charmosas da cidade de São Paulo, chamada Pamplona. Quando tive que parar o
veículo, por causa do semáforo em vermelho, no cruzamento com a mais paulista
das avenidas, a Avenida Paulista, não me dei conta de que estava com o vidro da
porta do carro totalmente aberto, deixando-me a mercê de uma deliciosa brisa
que soprava naquele fim de tarde, bem como de uma ligeira aproximação seguida
de abordagem de um rapaz, mulato, quase negro, bigode ralo, expressão e sorriso
dissimulado do ator de cinema norte-americano, Eddy Murphi.
De fato, não havia sorriso nenhum naquele semblante de rapaz urbano. O
que se via num rosto ríspido encravado de um par de olhos vivos e sagazes, era
um olhar de brilho intermitente, fugaz e penetrante na alma de quem seria mais
uma de suas vítimas de ataque realizado com maestria de esperteza e rapidez,
tal qual um leão no abate de uma gazela ferida. Naquele momento, na minha
particular ingenuidade, achei que me fosse pedir alguma informação, uma ajuda
ou outra coisa qualquer, porque são tantos que o fazem diariamente nesta grande
cidade. Estava enganado, muito enganado.
Aquele sujeito me pediu algo que eu havia comprado há bem pouco tempo.
Um toca-fitas de automóvel de último modelo, que havia sido instalado por
precaução de forma portátil, ou seja, com um dispositivo chamado de bandeja, o
qual permite ao seu proprietário levá-lo à tiracolo prevenindo-se assim de
sorrateiros furtos.
Percebi, naquele momento, que estava prestes a entrar para as
estatísticas de violência urbana de uma megalópole Sul Americana, quando vi,
com esses olhos que alguém ainda fará talvez uso melhor, de relance, o brilho
prateado de uma arma de fogo que era segurada com firmeza pela mão direita do
rapaz. Ironicamente, a música que se
ouvia do toca-fitas era The Wall, de Pink Floyd e havia sido gravada por um
amigo que me dera de presente, na semana anterior, os dois volumes do álbum
reproduzidos em duas fitas.
Fiquei indeciso diante do pedido, que àquela altura dos acontecimentos,
já era uma ordem de vida ou morte. Olhava para o toca-fitas e para o rosto do
rapaz balbuciando algumas palavras sem sentido, até que ele gritou nos meus
sensíveis ouvidos.
- Anda logo! a esta ordem, entendi perfeitamente e com um movimento
brusco retirei o toca-fitas do painel e passei-o às mãos do rapaz que
rapidamente, o envolveu com a sua jaqueta cor de palha e em ziguezague entre os
automóveis foi-se embora rua abaixo, desaparecendo em segundos, do alcance da
minha vista.
Refeito do susto, após respirar fundo e me certificar de que ainda
continuava vivo, segui dirigindo pela Avenida Paulista em direção ao meu lar
aparentemente seguro. Subitamente tive a idéia de telefonar para a polícia
chamando pelo número 190 com o telefone celular, algo ainda relativamente novo
na época e de funcionamento precário, mas para a minha surpresa naquela chamada
o aparelho funcionou muito bem. Narrei o ocorrido para a atendente e segui sua
orientação de comparecer à delegacia de polícia mais próxima para registrar a
ocorrência do delito. Lá, fiquei cerca de três horas e para o meu conforto
psicológico, pude constatar de que havia muitos outros casos semelhantes ao
meu. Exausto e indignado com aquela constatação, fui-me embora daquele lugar
úmido, frio e de uma atmosfera horrível para a minha aguçada sensibilidade.
Indeciso sobre a compra de um outro aparelho toca-fitas de meu gosto,
sobretudo seguro, algumas semanas se passaram. Finalmente optei, depois de
muita reflexão, por um da mesma marca, porém de outro modelo, mais seguro
ainda, ou seja, fixo no painel do automóvel e de frente removível, de modo que
todas as vezes que eu deixava o carro em locais públicos ou até mesmo no
estacionamento do prédio onde eu me residia, por precaução, retirava a frente
do toca-fitas, colocava-a no seu estojo e a levava comigo como se fosse caixinha de óculos de sol.
Certificava-me com esmero de todos os cuidados com a tal frente removível,
sabendo também que se me fosse furtada por alguém, de nada serviria, pois havia
nela um código de segurança que impedia seu funcionamento em outro aparelho.
Lembro-me muito bem de que, por ocasião da compra, era isto o que me dizia o vendedor no seu
forte apelo de venda.
Caro leitor, nesta vida há
coincidências que se parecem com coisas de outro mundo. Foi isso mesmo o que
conclui, dias depois de efetuada a compra do novo aparelho, quando de dentro do
meu carro, parado diante do semáforo, há três ou quatro quadras do local onde
havia acontecido aquele assalto, avistei alguém que me parecia familiar e
trajava um terno, que se eu não me engano... era bege, quase cor de palha. Ele
caminhava pela calçada a minha esquerda em sentido contrário da minha direção.
Quando passou por mim, senti um calafrio, pois reconheci aquele olhar e o sorriso
dissimulado, quase imperceptível, porém antes de pensar em alguma coisa ou
pedir ajuda, senti também a sua presença e desta feita muito mais audaz, pois o
cano do revólver já havia ultrapassado a fresta entre o vidro e a porta do
carro e já tocava a minha cabeleira. Não pude conter a surpresa e disse em tom
de lamentação. – De novo? Não é possível...
O rapaz ao me reconhecer, irritou-se mais ainda e repetiu a ordem e
desta feita, dizendo que fosse retirada a frente do toca-fitas, como se ele
soubesse de bate pronto que aquele modelo era o de frente removível. Não
acreditei que o pesadelo recomeçaria naquele instante. Assustado, olhei para
todos os lados tentando encontrar um olhar que pudesse perceber o que estava
acontecendo, mas nada encontrei a não ser olhares vagos, de motoristas
indiferentes e distantes. Pela segunda vez, vi a silhueta daquele rapaz se
perder no emaranhado de carros que havia atrás de mim, levando consigo o
toca-fitas protegido e seguro que acabara de adquirir.
De repente fui tomado de um acesso de raiva e de um sentimento de
revolta inexplicáveis para um cidadão que detesta violência. Senti vontade de
fazer justiça a qualquer custo e com as
próprias mãos como o pior dos assassinos sanguinários. Enfurecido e decidido a
levar adiante a minha sede de vingança contra tamanha ousadia, fui novamente
para a mesma delegacia e lá narrei o fato com discurso de candidato a deputado.
Exigi uma ação imediata da polícia, pois como cidadão honesto que sou, achei-me
no direito de conseguir uma reparação daquela afronta, daquele abuso e da
audácia a que havia sido submetido. Eis que, um cidadão qualquer ouvindo a
minha história, contada em voz alta para o escrivão de polícia, se interessou e
iniciou algumas indagações. Logo percebi que se tratava de um investigador de
polícia. Ao final do depoimento, o policial
convidou-me para uma ronda próxima ao local do crime, juntamente com
outros dois policiais que ali estavam também à paisana e escutando a conversa.
Aceitei prontamente o convite e lá fomos nós para o Parque Trianon. Quando nos
aproximávamos do local me foi pedido para entrar no carro dos policiais, um
sedan Volkswagen, branco, cujo ano e modelo não me lembro. Neste momento pude
observar melhor os meus guarda-costas, bem como tirar as minhas primeiras
conclusões de suas personalidades.
Dionisio aparentava 40 anos,
talvez o mais velho dos três, mais de 1,80m de altura, magro, de cabelos ruivos, me pareceu o mais
experiente, pois conduzia a diligência me fazendo muitas perguntas. É este?
Perguntava Dionisio com rispidez. Como ele estava vestido mesmo? Trajava jeans?
Insistia Dionisio, enquanto apontava para pacatos rapazes que transitavam pelas
calçadas ou que se encontravam à espera da passagem de um ônibus.
Carlos Alberto, o Alemão, fumante inveterado, se parecia fisicamente um
pouco com Dionisio, era loiro, olhos claros, alto, magro, usava óculos e
bigodes. No entanto, ao contrário de Dionisio, aparentava um nervosíssimo
inquietante, pois durante todo o tempo não tirava a mão direita do cabo da
pistola automática que carregava na cintura.
Podia jurar que ele era um paranóico na profissão, os fatos que
sucederiam poderiam comprovar ou não a minha suspeita.
Valdomiro, o Miro, era moreno, um pouco mais baixo que os outros dois e
mais jovem, mas seu físico era de longe muito inadequado para a função,
necessitava de um bom regime, pois o excesso de gordura já transbordava a
cintura das calças forçando-o a levantá-las a todo momento.
Estacionamos o carro na Rua Peixoto Gomide e iniciamos ao que chamei de
"A Caçada do Parque Trianon". O Alemão, assim que desceu do carro,
seguiu a passos largos para a Alameda Santos no seu ponto menos iluminado, ou
seja, entre as duas quadras do parque, a da Paulista (Norte) e a dos Jardins
(Sul). Pela Avenida Paulista, seguimos, eu, o Miro e o Dionisio olhando
atentamente para todos os rapazes que por ali passavam naquele momento.
Começamos a descer a Alameda Casa Branca – transversal à Alameda Santos, quando
de repente dois rapazes, um mulato e um branco, começaram a escalar de dentro
para fora as grades de ferro que circundam todo o parque. De imediato,
acreditei que aquilo não passava de uma brincadeira de moleques, mas os meus
companheiros não pensavam o mesmo. Esperaram que os dois garotos terminassem a
peraltice para entrarem em ação num estilo de fazer inveja aos atores de filmes
policiais de Hollywood. De armas em punho e apontando para os meninos gritaram,
polícia!, mãos na cabeça!, quietos! Em seguida, após a petrificação dos meninos
assustados, passaram à revista mas nada encontraram e começaram com um
interrogatório ao ar livre nunca visto antes por mim e talvez por nenhum outro
jovem que não viveu nos tempos da ditadura militar. Eram perguntas de todo tipo
e ameaças sem sentido que fariam arrepiar qualquer militante de defesa dos
direitos humanos. Eis que o rapaz mulato, muito assustado e mais pressionado do
que o outro, meio sem jeito, com voz embargada, confessou seu crime: disse que
estava em práticas de sodomia com o seu amigo de escola.
Dioniso não conteve a gargalhada e olhando para o rapaz branco fez
diversas piadinhas recheadas de palavras obscenas para humilhá-lo ainda mais.
Ali mesmo, sob a alegação de ausência de documentos pessoais, algemou os dois
com uma única algema presa numa haste da grade. Ato continuo deste espetáculo
ao ar livre às 21:00 horas de uma noite de verão, outros dois rapazes
abarrotados de sacolas, que caminhavam na mesma calçada foram interpelados pelo
Miro, que ao averiguar as sacolas e constatar que eram brinquedos eletrônicos, todos
sem nota fiscal e ainda havia no fundo de uma das sacolas uma réplica perfeita
e contrabandeada de uma pistola automática modelo 765, de imediato, deu voz de
prisão aos rapazes. Não demorou muito para o Alemão dar a sua contribuição
também e mostrar sua eficiência, vindo da Alameda Santos, com a sua presa e
como não podia deixar de ser, também algemada. Era um garoto negro, talvez de
não mais de 16 anos, quase em prantos de medo e pavor. O Alemão foi logo
dizendo, grampeei este aqui porque estava dando bobeira, subindo e descendo a
rua e além do mais, contou uma estória pra boi dormir e não tem um documento
sequer.
Diante daquele quadro patético e cruel, o que mais me chocava era o
garoto negro que havia acabado de ser preso. Aproximei-me dele e lhe fiz
algumas perguntas com o objetivo de encontrar um argumento para ser usado a seu
favor e convencer os policiais para soltá-lo. Para minha surpresa, e uma vez
que somente eu trajava terno e gravata, percebi que estava sendo confundido por
todos os "bandidos" como se fosse o Delegado que comandava a
diligência. Diante deste surrealismo inoportuno, compartilhei a idéia com o
Dionísio que sorrindo me disse, vai em frente “delegado”. Por instantes e por
vaidade intrínseca e incontrolável chamei a atenção de todos os rapazes por não
portarem documentos, principalmente daquele garoto negro. Na introspeção e no
exame de consciência imediato, senti na minha leviandade o quanto pode haver de
tirania em quem se encontra com o poder de polícia e de opressão. É inexorável que aos fracos e oprimidos não
cabe fazer escolhas todavia, paradoxalmente, a opressão é a arma mais usual dos
fracos investidos de poder.
Com toda aquela gente capturada chamando a atenção de todos que
passavam por ali a pé ou de carro, o Dionísio precisava, urgentemente,
solicitar uma viatura. O meu telefone celular serviu-lhe de prontidão com
eficiência e presteza, coisa rara naqueles tempos. Assim que recebi de volta o
aparelho, resolvi dar notícias à minha esposa que me aguardava ansiosamente, pois
eu havia lhe avisado de que estaria participando da tal diligência. Durante a
conversa, notei que o Alemão atravessa a rua em diagonal na direção da praça e
já estava empunhando a sua automática metálica, porém mantinha-a escondida
junto a sua perna esquerda, uma vez que era canhoto. Na praça, naquele exato
momento, dois rapazes haviam se encontrado e trocavam rápidas palavras. Isto
foi o bastante para o Alemão apontar a arma para os rapazes e gritar, polícia!
no chão!
Um dos rapazes obedeceu à ordem de prontidão e se jogou no chão. O
outro, porém, insinuou com passos apressados, que iria correr. O Alemão
percebendo a manobra, começou a atirar para o chão e a gritar mais alto,
parado! polícia!
No momento dos disparos, três ou quatro, eu dizia a minha esposa que
estava tudo bem e que tudo iria acabar bem. Do outro lado da linha, ouvi uma
seqüência de perguntas do tipo, o que é isto? que barulho é este? tá tudo bem
mesmo?
O rapaz se assustou ainda mais com os estampidos dos tiros e passou a
correr desenfreadamente rua abaixo. No seu encalço partiu o Alemão obtendo, sem
pedir, a ajuda de um vigia noturno que se jogou sobre o rapaz e conseguiu
agarrá-lo.
Procurei acalmar a minha esposa balbuciando um monte de palavras, pois
também pudera, estava mais nervoso do que ela presenciando a olho nu aquelas
cenas que só se vêem no cinema e nunca na vida real. Como não havia mais
algemas, o Alemão, agora, trazia a sua presa fugitiva, aplicando-lhe a chamada
chave de braço, que de vez em quando era apertada por ele quando o rapaz lhe respondia qualquer
coisa que não lhe agradava. O pobre rapaz, entre gemidos e grunhidos, tentava
justificar a sua parada na praça, dizendo que estava apenas perguntando ao
outro, se poderia lhe dar um cigarro,
cuja estória o Alemão se recusava veementemente em acreditar e o acusava de
contrabando de drogas.
Neste ínterim, a viatura chegou e todos os prisioneiros
foram colocados, amassados e empurrados
para dentro dela sob queixas e protestos.
Seguimos a viatura até a Delegacia. De lá, após algumas formalidades
seguidas de promessas de captura do verdadeiro criminoso, etc, etc, entrei no
meu automóvel, mais pensativo do que nunca, pois o pesadelo havia terminado.
Não conseguia tirar nenhuma conclusão do que havia presenciado durante aquelas
horas de alta tensão, nervosismo e atitudes contraditórias, pois aquela era a
primeira vez que participava, sem saber, de uma caçada, muito menos de uma
caçada humana na metrópole paulista, e tudo por causa de um toca-fitas que
nunca foi encontrado e tão pouco aquele que o surrupiou à força, apontando uma
arma para os meus miolos, num fim de tarde de um dia de verão.
***
Tílburi
T
ílburi ainda era o meio de transporte mais utilizado em meados do
século passado, para viagens curtas como por exemplo, do bairro ao centro da
cidade e vice-versa. O veículo, de tração animal, conduzia vagarosamente seus
passageiros – no máximo dois, pelas ruas esburacadas, poeirentas, algumas
calçadas de paralelepípedos ou pelos morros do Rio de Janeiro, a capital do
Brasil na época. Com uma viagem, ou até mesmo com um passeio de poucos
quilômetros, levava-se horas. Para o incansável cocheiro que seguia a pé ao
lado do veículo transportador, o tempo da viagem pouco lhe importava, a
satisfação do cliente, quase sempre um cavalheiro acompanhado de uma donzela,
era muito mais importante, pois lhe dava credibilidade para a viagem de retorno
ou mesmo para outras futuras. Além do mais, gozava de boa reputação
profissional, o cocheiro que atenuava as sacudidelas durante o percurso e ainda
mantinha silêncio perpétuo e boca fechada após o seu final, de tudo que seus
ouvidos captavam das confidências íntimas dos ilustres passageiros.
O tempo passou, a revolução industrial pós-guerra chegou ao país, o Rio
de Janeiro deixou de ser a capital do Brasil, os tílburis viraram peças de
museus e os cocheiros... bem, os cocheiros se aposentaram ou mudaram de
profissão. No século XX dirige-se automóveis velozes, aviões rapidíssimos e até
foguetes mais velozes ainda e talvez, no próximo século que se aproxima,
espaçonaves serão um dos meios de transporte mais utilizados, e finalmente o
homem abandonará o uso daquela que foi uma grande invenção e que lhe serviu por
milhares de anos, a roda. Também, nos dias de hoje, nos mais longínquos lugares
deste planeta, dirige-se trens de ferro sobre trilhos de ferro – uma invenção do século XVIII, movidos a vapor
no passado e hoje a óleo diesel ou a eletricidade. Há trens famosos que foram
parar nas telas de Hollywood. O Oriente Express é um deles. Outros, como o
velocíssimo trem bala japonês e o que interliga Londres à Paris, são admiráveis
e verdadeiros colossos de rapidez e conforto, sobretudo de segurança no
transporte coletivo. Coube ao segundo, o
trem anglo-saxão, através do mais extraordinário túnel construído pelo homem
sob o oceano, numa mostra verdadeira de ousadia da engenharia moderna, o papel
de entrar para a história ao satisfazer o desejo muito antigo de Ingleses e
Franceses, de ir e vir entre as suas capitais sem molhar a ponta dos pés.
Nas grandes cidades, há trens de ferro elétricos e predominantemente
urbanos chamados de Metropolitanos ou simplesmente de Metrô. Circulam por
túneis construídos sob prédios, ruas, avenidas e transportam grande quantidade
de passageiros. O mais antigo metrô é o da cidade de Londres, inaugurado em
1.934. O de Nova York é famoso pelo seu tamanho e também pelo seu estado de
degradação, mas nem por isso deixa de ser eficiente e pontual. Aqui, em São
Paulo, temos o nosso Metrô também, cuja construção se iniciou em 1.968 e ainda
não terminou. Entrou em operação comercial em 1975 transportando pouca gente
assustada com o trem que “entrava no buraco”. Hoje, transporta 2,5 milhões de
passageiros por dia, mas mesmo assim não é suficiente. Só quem se utiliza deste meio de transporte
todos os dias nos seus horários de pico, pode afirmar o quanto é difícil e
angustiante uma viagem que poderia ser agradável e confortável.
Há atualmente, três linhas em funcionamento e uma outra quarta em
planejamento. Entretanto, as diferentes características das linhas principais
em funcionamento no metrô de São Paulo, a Norte/Sul chamada também de linha 1
ou Azul e a Leste/Oeste, também chamada de linha 3 ou Vermelha, são facilmente
notadas por qualquer passageiro. A primeira, a linha Azul, possui vagões mais
antigos construídos sob licença de uma empresa norte americana com
especificações apropriadas para a população do seu país de origem, ou seja,
menor área envidraçada, menor espaço livre nos corredores – talvez por lá a
maioria dos passageiros viajam sentados, maior altura interna – a estatura do
cidadão norte-americano está acima de 1,70m e sistema de ventilação forçada
eficiente, já que nunca seria necessário ar refrigerado num país de temperatura
média abaixo de 20º C. A segunda, a linha Vermelha, possui vagões de fabricação
nacional, com grande área envidraçada – própria para apreciação da paisagem
urbanística da metrópole, maior espaço interno – pois, sabe-se que ainda vai se levar muito tempo
para desafogar o sistema, logo os vagões viajarão sempre lotados de
passageiros, menor altura interna – afinal, o brasileiro médio não passa de
1,70m e por último, um sistema de ventilação forçada ineficiente, uma vez que
todos os trens, nota-se pelo tipo de saída de ar existente, seriam dotados de
ar refrigerado portanto, um sistema eficiente de ventilação forçada não seria
muito necessário. Ocorre que, não há um só trem com sistema de ar refrigerado
funcionando logo, em dias de muito calor, uma viagem ainda que entre poucas
estações, transforma-se num verdadeiro martírio sufocante e escaldante
portanto, a pergunta não pode deixar de ser formulada: será que acabou a verba
destinada ao ar refrigerado ou alguém se esqueceu de comprar os equipamentos?
Nota-se também, que tem havido progressos nas adaptações dos trens para
as condições da população brasileira, porém em apenas alguns vagões, como por
exemplo, a colocação de barras de apoio adicionais e transversais as quais
facilitam um pouco a vida dos passageiros que viajam em pé, assim dois passageiros
em pé quase ocupam o mesmo espaço, ficam grudados um ao outro, ambos apoiados
nas barras. Caso o passageiro que esteja na sua frente seja menor do que você,
ele ficará encaixado embaixo do seu braço, caso contrário recomendo-lhe a mudar
de posição, isto é, se você conseguir se mover. Para quem não aprecia o contato
humano, corpo a corpo, o uso do metrô não é recomendável.
Têm sido interessantes as tentativas por parte da direção do Metrô de
educar a população para o embarque nas estações de maior volume de passageiros,
como por exemplo na estação Sé. Lá, nas plataformas, nos locais onde exatamente
se abrem as portas dos vagões durante as paradas dos trens, para orientar e
organizar o embarque, já se utilizou de faixas sinalizadas no chão no sentido perpendicular
às portas. Também houve uma tentativa no sentido ziguezague, mas se conseguiu
pouco resultado, porque o volume de passageiros é imenso e não há quem fique
olhando para o chão para se posicionar para o embarque dentro das faixas que se
assemelham a um labirinto. Só está faltando a tentativa de sinalizar as faixas
no sentido oblíquo e quem sabe, pelo fato de posicionar o passageiro de um modo
mais natural na sua chegada, sem que se sinta obrigado a olhar constantemente
para o chão, como se estivesse à procura de uma saída do labirinto, consiga-se
assim resultados melhores. Tentativa por tentativa, vale mais uma, pelo menos.
Na linha Norte/Sul percebe-se que ainda não se utiliza a capacidade
total de transporte de passageiros, pois ainda é possível nos horários de pico
entrar nos vagões sem ter de empurrar alguém para ocupar um espaço vazio, já na
linha Leste/Oeste há tempos que há sinais de saturação nos horários de pico. Em
dias que há problemas operacionais ou atraso por causa de chuvas, face ao
turbilhão de gente se amontoando nas plataformas a cada minuto, é temeroso
tentar um embarque na estação Sé. Em havendo pânico por qualquer motivo as
conseqüências são imprevisíveis, mas felizmente, até agora, não se tem notícia de um fato como este.
Quando se está viajando no sentido bairro/centro na linha leste/oeste,
no horário de pico da manhã, nas estações que antecedem a estação Sé, o
embarque torna-se quase impossível e às vezes, o melhor que o passageiro possa
fazer é recuar quatro ou cinco estações tomando o trem no sentido centro/bairro
e mesmo assim, na medida que este se aproxima da estação Sé, o volume de
pessoas dentro dos vagões vai aumentando mais e mais, apertando, amassando,
arrochando todos contra todos, literalmente até o limite máximo da lei de
Newton – dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo, ou até onde o
limite da educação permite. Nessas situações, nota-se a angustia generalizada
no semblante das pessoas que aguardam ansiosamente pela chegada na estação Sé e
a fobia, de carona com a ansiedade, aumenta consideravelmente a cada estação ou
parada forçada do trem entre uma e outra estação.
O desembarque na estação Sé é desastroso e só comparável com o estouro
de uma boiada. Há sempre pessoas mal informadas ou não acostumadas com o uso
diário do metrô e não percebem que, se não desembarcarem juntas com a multidão,
vão atrapalhar e acabam sendo impiedosamente atropeladas, pois quem não
consegue abandonar o trem em segundos, só poderá fazê-lo na próxima estação,
pois as portas se fecharão automaticamente e por segurança não reabrirão a
pedido de alguém, por mais importante e ilustre que seja o passageiro,
cavalheiro ou donzela.
No horário de pico, nos displayers eletrônicos informativos espalhados
pelas estações, deveria haver o seguinte aviso: "O ministério dos
transportes adverte: o uso do metrô nos horários de pico, não é recomendado
para crianças menores de 10 anos, gestantes e idosos". Todas essas pessoas
nessas condições desfavoráveis são massacradas, não há como escapar.
Caro leitor, em tudo na vida que se pratica constantemente pelo hábito
ou pelo dever, sempre se descobre técnicas que se aperfeiçoam ao longo do
tempo, conforme a prática. Como fruto de minha observação, posso lhe assegurar
que o passageiro que tenha embarcado no último vagão do trem e no desembarque
na estação Sé (sempre ela, pois é a estação de maior volume de passageiros e de
cruzamento de linhas), caso se veja obrigado a atravessar a plataforma de
embarque/desembarque de passageiros por toda a sua extensão, caberá a ele
apenas 10 segundos de paciência posicionando-se na plataforma ao lado da porta
da qual acabara de sair, para aguardar que todos os passageiros abandonem seus
respectivos vagões. Em seguida, seguir na direção do vagão mestre, o principal,
no sentido da próxima porta e quando lá chegar, passados os 10 segundos, todos
os passageiros daquele compartimento já estarão se distanciando dali e assim,
sucessivamente ocorrerá em todos os vagões. Moral da história: ele, o nosso
passageiro experiente, não se chocará com nenhum outro, pois todos já terão
saídos apressados para o embarque em outro trem ou abandono da estação,
deixando livre a área da plataforma de desembarque.
Apesar de todas as deficiências oriundas da complexidade do sistema é
impossível imaginar a cidade de São Paulo sem o seu metrô. Seria o caos e
milhões de pessoas não conseguiriam sequer chegar nos seus locais de trabalho.
Com todos os seus problemas, o metrô ainda está longe de ser comparado com a
degradação existente nos trens do subúrbio os quais, ironicamente, em alguns
trechos da linha Leste/Oeste, seguem lado a lado com os do metrô e
invariavelmente com suas portas escancaradas, deixando à mostra seus surfistas
de trem dependurados à espera da morte.
É frustrante admitir que há desgraças piores do que as suas e ter de
contentar-se com o razoável, mesmo sabendo que poderia ter o melhor, pagando
muito menos. Esta é a tônica no Brasil de hoje revestido de diversas facetas
sociais nem todas dignas de um povo de boa-fé e esperançoso. Até quando? Só o
tempo e a história dirão.